Os números em Apocalipse

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Escrito em Éfeso por volta de 95 d.C., Apocalipse registra as visões do apóstolo João durante seu exílio na ilha de Patmos (1.1,4,9; 22.8). Nenhum livro da Bíblia tem recebido tantas interpretações quanto o último, que faz parte da literatura apocalíptica profética (não confunda com a literatura apocalíptica apócrifa do período interbíblico) e tem como destinatários originais as igrejas da província da Ásia. Orígenes (185-254), de Alexandria, o interpretou de modo completamente alegórico, em contraposição aos intérpretes literalistas de Antioquia. Essas duas escolas geraram, ao longo da História da Igreja, quatro modos de interpretar as profecias apocalípticas. O historicismo as vê como predições que se cumprem ao longo da História. O idealismo, de Agostinho (354-430), trata tais profecias como meras expressões idealizadas da luta entre o bem e o mal. Já o preterismo, que vê as profecias de Apocalipse como já cumpridas, tomam como base os posicionamentos dos reformadores (Lutero, Calvino etc.), os quais, de modo geral, não se dedicaram ao estudo minucioso desse livro bíblico.

A Assembleia de Deus abraçou desde sua origem o futurismo, considerando que esse posicionamento hermenêutico se harmoniza perfeitamente com Apocalipse 1.19, passagem em que Jesus aplica um duro golpe nas posições não futuristas. Mais que apresentar a João a divisão do livro, o Senhor deixa claro que sua parte profética (caps. 4-22) alude ao futuro: “Escreve as coisas que tens visto, e as que são, e as que depois destas hão de acontecer”. Boa parte dessa revelação do que ainda há de vir é apresentada de modo pictórico e simbólico. E um dos recursos que mais se destaca é o emprego de números, que nunca aparecem por acaso ao longo de Apocalipse. Neste artigo, discorrerei sobre a numerologia apocalíptica. Mas, atenção: os números constantes das Escrituras não devem ser associados, obrigatoriamente, a previsões, como no caso da numerologia ocultista, já que são empregados, sobretudo, para revelar a sabedoria e a perfeição divinas.

Número 7

Este aparece em toda a Bíblia e simboliza plenitude e/ou perfeição (cf. Gn 12.1-3; 27.28,39; Êx 28.4,42; Lv 8.10,11; Sl 119.164; 1 Rs 19.18; Pv 24.16 etc.). Em Apocalipse, é o número mais representativo e aparece logo no seu prólogo, na menção que às 7 igrejas da Ásia Menor e aos 7 espíritos de Deus (Ap 1.4,11; 3.1; 4.5). Antes dessa menção, já temos a primeira de uma série de 7 bem-aventuranças encontradas ao longo desse livro (1.3; cf. 14.13; 16.15; 19.9; 20.6; 22.7,14). A primeira visão de João são os 7 castiçais e as 7 estrelas na mão direita do Senhor Jesus (1.12-16), que são, respectivamente, as 7 igrejas da Ásia e os 7 pastores (também chamados de “anjos” ou “mensageiros”) dessas igrejas locais (v. 20; 2.1; 3.1). Em seguida, esse apóstolo vê um livro fechado com 7 selos (5.1,5; 6.1). Nesse quadro pictórico, o Senhor é retratado como um Cordeiro com 7 chifres e 7 olhos, que são os 7 espíritos de Deus (5.6), os quais aludem, respectivamente, ao perfeito poder do Senhor Jesus (cf. 1.8), e a seus atributos divinos, como a sua onisciência (cf. Is 11.2). Assim que o sétimo selo é aberto, 7 anjos aparecem com 7 trombetas (Ap 8.2,6).

Mais adiante, mencionam-se 7 anjos com as 7 últimas pragas em 7 taças de ouro (Ap 15.1,6,7; 16.1; 17.1; 21.9). Ou seja, selos, trombetas e taças não são concomitantes, e sim sequenciais. Há, portanto, uma cronologia em Apocalipse, a despeito das várias revelações parentéticas (cf. caps. 11-13 etc.), que podem levar um leitor desatento a se confundir quanto à ordem dos acontecimentos entre o Arrebatamento da Igreja e a Manifestação do Senhor em poder e glória. Nos capítulos 10 e 11, mencionam-se também 7 trovões (10.3,4) e uma profecia segundo a qual morrerão 7 mil homens (11.13). E, no capítulo 12, Satanás é apresentado como um dragão com 7 cabeças e 7 diademas. Essas mesmas características são transpostas para a Besta que sobe do mar (13.1), a qual representa o Anticristo. Isso mostra que o império anticristão será, na verdade, o domínio de Satanás, já que o “filho da perdição” (cf. 2 Ts 2.1-12) será apenas seu preposto. No capítulo 17 temos a explicação de tudo isso: trata-se da continuação da revelação constante de Daniel 7, na qual um animal monstruoso (o quarto) é apresentado também com 10 chifres. Estes, tanto em Daniel como em Apocalipse, aludem a 10 reinos simultâneos, que formarão a base do domínio anticristão.

Essas 10 nações confederadas advêm do que restou dos 4 impérios mundiais constantes do sonho de Nabucodonosor: babilônio, medo-persa, grego e romano (cf. Dn 2). Os 10 dedos dos pés da estátua, em parte ferro e em parte barro, aludem a essas 10 nações (10 chifres). Observe que um anjo, ao falar com João sobre as características da Besta, menciona os 10 chifres depois das 7 cabeças (Ap 17.9-12), justamente porque aqueles, revelados primeiro a Daniel, representam nações que advirão das 7 cabeças. Estas, por sua vez, aludem a 5 impérios que já haviam caído (egípcio, assírio, babilônio, medo-persa e grego); a um que ainda existia (romano); e a outro que ainda emergiria, o qual durará pouco. Este, o sétimo, será constituído de 10 nações confederadas que formarão a base do governo anticristão, que é a oitava cabeça. Ou seja, o império do mal se formará a partir do legado dos grandes impérios pagãos, especialmente da sua última expressão (10 chifres sobre a sétima cabeça). No epílogo de Apocalipse, vemos, ainda, que João contempla 7 coisas novas: Céu; Terra; Jerusalém; muro dessa cidade celestial com doze portas; fundamentos desse muro; o rio da água da vida; e a árvore da vida (21.1,2,12-20; 22.1.2).

Número 666

De acordo com Apocalipse 13.14-18, quem desejar comprar alguma coisa, durante o período tribulacional, só poderá fazê-lo mediante o sinal, o nome ou o número do nome da Besta. Apenas o número é revelado: o famoso 666. Alguns teólogos preteristas defendem, com base em pouquíssimos manuscritos mais antigos (menos de 1%) — possivelmente, adulterados em Alexandria —, a ideia de que o número da Besta é 616, já que esse número tem a ver com Nero. A partir dessa suposição, afirmam que esse imperador romano foi o Anticristo. Entretanto, 666 consta de mais de 99% dos manuscritos. Aliás, é bom dizer que não é 6, 6 e 6, isto é, a repetição do número 6, e sim 666 (seiscentos e sessenta e seis).

Número 12

Em Apocalipse, este refere-se, sobretudo, a Israel, o povo de Deus nos tempos veterotestamentários (cf. Êx 28.21; Lv 24.5; Js 4.3; Ez 43.16), mas também à Igreja. Esse número aparece primeiro na menção dos 144 mil selados por Deus no período tribulacional: 12 mil de cada uma das 12 tribos de Israel (Ap 7.5-8). No capítulo 12, a mulher vestida do sol (Israel) tem uma coroa de 12 estrelas, alusiva às 12 tribos de Israel. A Nova Jerusalém, que é quadrangular, perfazendo 12 mil estádios, tem a árvore da vida, a qual produz 12 frutos para 12 meses. Essa cidade celestial tem 12 portas (pérolas) com os nomes das 12 tribos, junto às quais estão 12 anjos. Ela também tem 12 fundamentos, nos quais estão os nomes dos 12 apóstolos (caps. 21-22).

Com base nessa revelação, entendemos que os 24 anciãos (cf. Ap 4.1-4,10; 5.8-10; 11.16; 19.4) simbolizam a totalidade do povo de Deus: 12+12 (Israel e Igreja), o qual estará no Céu antes do início do período tribulacional (1 Ts 4.13-18; cf. Hb 11.39,40). Note que os 24 anciãos — que não são anjos, pois estes nunca são chamados de “presbíteros” (gr. presbuteros) na Bíblia — estão sentados em tronos, vestidos de branco, com coroas na cabeça e cantam um novo cântico, alusivo à morte expiatória do Senhor (Ap 3.21; 2.10; 3.4,5,11; 5.9). Quando Jesus desata os selos, que dão início a uma série de juízos divinos, eles já estão na sua presença, pois, sem dúvida, aludem às 12 tribos de Israel e aos 12 apóstolos do Cordeiro. Entretanto, ainda que esses 24 anciãos não sejam pessoas reais, e sim uma representação da Igreja arrebatada (cf. Ap 19.4), isso não invalida a promessa de que os apóstolos governarão juntamente com Cristo (cf. Mt 19.28). Maranata!

Por Ciro Sanches Zibordi é pastor, escritor, membro da Casa de Letras Emílio Conde e da Academia Evangélica de Letras do Brasil.

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