EBD – O sermão do monte: o caráter do Reino de Deus

Pr. Sérgio Loureiro
Pr. Sérgio Loureiro
Sou o Pastor Sérgio Loureiro, Casado com Neusimar Loureiro, Pai de Lucas e Daniela Loureiro. Graduando em Administração e Graduando em Teologia. Congrego na Assembleia de Deus em Bela Vista - SG
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Prezados professores e alunos,

Paz do Senhor!

Vivemos uma degradação de valores em nossa sociedade. Por isso, neste trimestre, as Assembleias de Deus tem o privilégio de estudar os valores do Reino de Deus revelados no Sermão do Monte. O pastor Osiel Gomes, escritor, conferencista e líder da AD em Tirirical (São Luís/MA) é o comentarista deste trimestre. Ele nos ajudará a compreender a relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo nos dias atuais. O tema deste trimestre é o Sermão do Monte, ou Sermão da Montanha. Considerado a alma do Evangelho, o ensino que Jesus transmitiu no monte se destaca pela sua dimensão prática e revela a essência de um verdadeiro seguidor de Cristo. Ao longo do trimestre, veremos que o Sermão do Monte traz um ensinamento que, em um primeiro instante, volta-se plenamente para Deus; e, noutro, revela o lado ético do divino reino: amar o próximo. Esses dois momentos perfazem os pilares da vida cristã (Mt 22.37,39). Assim, o Sermão do Monte é um convite para praticar o que Jesus ensinou.

INTRODUÇÃO               

Não se pode renegar a grande influência e leitura que se faz do Sermão da Montanha, atribui-se a ele as mais diversas nomenclaturas: Cristianismo Essencial, Manifesto de Cristo, O Alvo da Vida, A Vida Cristã Ideal, porém o que se pode realmente dizer é que nos capítulos 5–7 do Evangelho de Mateus o que se tem é a sinopse do ensino ético das exigências de Cristo para aqueles que desejavam fazer parte do seu Reino. Em suas partes há ensinos gerais e impactantes que abrangem as múltiplas áreas da vida religiosa.

Falando desse sermão, John Stott diz:

É provável que o Sermão do Monte seja a parte mais conhecida do ensino de Jesus, embora, discutivelmente seja a menos compreendida e, sem dúvida, ao que menos se obedece. Do que ele já proferiu é o que mais se aproxima de um manifesto, pois é sua própria descrição do que queria que seus seguidores fossem e fizessem.

Pelas palavras acima, compreendemos que o simples fato de ser o mais conhecido ensino de Cristo não garante plenamente sua compreensão e prática, pois disso resulta a necessidade da transformação divina, visto que só pode realmente valorizar aquilo que é espiritual, procedente de Cristo, quando se é espiritual (1Co 2.15). Essa espiritualidade só é possível por intermédio do novo nascimento, caso não seja assim, tais verdades etéreas serão de pouca monta, como bem foi falado por Jesus a Nicodemos (Jo 3.12). Apesar da mensagem do Mestre divino em Mateus, nos capítulos de 5 a 7, sua praticidade é quase impossível porque primeiramente deve ocorrer uma mudança interior para que se desejem as pepitas de ouro deixadas por Cristo.

Os ensinos propostos por Cristo no Sermão do Monte não são para ser apenas venerados, estudados, analisados e discutidos, como muitos têm feito, antes, em sua difusão, o divino Mestre procura plasmar cada discípulo conforme seus ideais e caráter. Quem deseja alcançar esse padrão elevado ou a quintessência falada por Cristo, jamais conseguirá viver no periférico natural e carnal, antes, é preciso abrir sua alma, deixar-se amalgamar por inteiro pela presença do grande Mestre, e, nessa fundição com a trindade divina, é que se torna possível alcançar a perfeição desejada por Jesus aos seus discípulos (Mt 5.48), desabrochando as mais belas virtudes na vida dos novos conversos.

“Eu neles, e Tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste como também amaste a mim” (Jo 17.23, NAA). Gomes. Osiel,. Os Valores do Reino de Deus: A Relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. 1ª edição: 2022. p. 13-14.

I- A ESTRUTURA DO SERMÃO DO MONTE

1- Por que Sermão do Monte?

Antes de adentramos especificamente na questão da estrutura do Sermão da Montanha, vamos começar falando sobre o porquê do Sermão do Monte. Na parte de Lucas 6.20-49, o sermão é sucinto e o nome que recebe é Sermão da Planície. Isso se deve à questão da diferente localidade (Lc 6.17). Fazendo um paralelo com Mateus, está escrito que Jesus subiu a um monte, do qual passou a dar suas instruções (Mt 5.1). No texto grego, Mateus começa assim: δν δ τος χλους νέβη ες τ ρος, “Vendo Jesus às multidões, subiu para a montanha” (Mt 5.1). Assim, o título sermão é julgado por alguns estudiosos como sendo infeliz.

Em relação à aparente discordância existente em Mateus e Lucas, não se pode em momento algum assegurar tal desarmonia, o que é bem explicado no Comentário Bíblico de William Hendriksen, que diz:

De acordo com Lucas, o sermão foi pronunciado “num lugar plano” (6.17), mas, de acordo com Mateus, “sobre um monte”. Aparamente contradição desaparece, seja admitindo que Jesus pronunciou seu discurso num planalto ou que, tendo escolhido seus discípulos no cume do monte, desceu com eles para a planície onde curou os enfermos e, em seguida, com os discípulos, voltou para o cume do monte (ver Mc 3.13; Lc 6.17 e Mt 5.1, nessa ordem). Se o segundo ponto de vista for adotado, tudo indica que na planície ele parou para curar os enfermos; no alto do monte ele se sentou, segundo o costume da época (Mc 4.1; 9.35; 13.3; Lc 4.20), para pronunciar o sermão. Seja qual for o ponto de vista que alguém adote, é evidente que nenhum conflito entre Mateus e Lucas pode ser provado.

Particularmente, posso julgar que alguns acham indevido o uso da palavra “sermão” para os capítulos 5–7 de Mateus, vejamos:

Em primeiro lugar, pelo fato de não constar no próprio texto.

Em segundo lugar, os ensinos de Cristo foram diversos discursos abrangendo temáticas diferentes, ao passo que o singular sermão estaria atrelado à prédica de um sacerdote, um pastor, inclusive pelo aspecto figurado, que pode carregar o peso de uma mensagem moralista, por exemplo: não me venha com sermão. No latim, a palavra sermão é “sermo, onis” e tem o sentido de conversa ou das palavras familiares trocadas em uma conversa. R. V. G. Tasker, falando sobre o assunto esclarece:

A expressão “sermão do monte”, pela qual esta seção é geralmente conhecida, é algo enganosa, desde que parece mais provável que nestes capítulos o evangelista não esteja registrando um discurso único pronunciado de uma só vez, mas, sim, reunindo e organizando pequenos grupos de ditos de Jesus sobre o discipulado, exarados em várias ocasiões durante seu ministério. O fato de que muitos dos ditos aqui registrados são encontrados em diferentes contextos na narrativa de Lucas confirma esta conclusão. Tal confirmação vem também da opinião generalizada de que dificilmente qualquer mestre condensaria tanta instrução em um único sermão. É pouco convincente a opinião de Chapman de que o sermão original pode ter durado tanto quanto uma hora inteira, na sua forma condensada, e até três horas, havendo necessidade de desenvolvimentos e explanações.

Há que se dizer que em relação à questão se o assunto foi abordado de uma só vez ou se aconteceu em várias ocasiões no ministério de Cristo, o duelo é grande, pois de um lado existem aqueles que são categóricos em afirmar que há sim unidade nesse sermão, ao passo que outros apresentam seus argumentos assegurando que não existe unidade. Esse debate continua ainda hoje e jamais se chegou a um consenso definitivo. Uma análise meticulosa é apresentada na conhecida Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia de R. N. Champlin e J. M. Bentes. De modo condensado e com um olhar critico apresentaremos as duas opiniões, contra e a favor da unidade.

Ainda se acrescenta que é falsa a ideia de que os escritores dos evangelhos contaram tudo o que sabiam e que não contaram o que não sabiam. Alegam aqueles da teoria editorial que Lucas desenvolveu sua narrativa firmado no pano de fundo palestino-judaico, e que se pode crer que Mateus fez sua narração seguida de tais minúcias.

Assim, o resultado é que se têm duas fontes distintas para o relato dos capítulos 5–7 de Mateus, de modo que Jesus fez junção do material dos dois sermões que havia ensinado, de maneira que os ensinamentos que chegaram a Mateus foram aqueles que Jesus apresentou naqueles dias.

O último ponto apresentado é o da questão da elaboração temática. Nesse particular, assegura-se que o sermão segue um curso normal, ele tem começo, meio e fim. O Sermão do Monte tem uma ideia central que se espalha no seu todo, sendo desenvolvida até chegar ao seu clímax final, nisso consiste sua unidade. Essa ideia é o Evangelho do Reino (Mt 4.23), de modo que Reino dos céus e Reino de Deus são semelhantes, sendo a primeira usada por Mateus, e a segunda por Lucas.

Importante ressaltar que há um propósito específico para o uso da palavra reino, tanto presente em Mateus como em Lucas. Nela há um aspecto escatológico, pois, por intermédio do ensino de Cristo nesse monte, a ideia que se tem é da concretização do Reino literal, e, com o uso do termo justiça, como falado por Daniel e Lucas (Dn 9.24).

Escatologicamente há uma espera pela implantação do Reino literal em que Cristo governará, porém, no Sermão do Monte, ensinado por Cristo, tem-se uma alusão ao Reino no seu aspecto espiritual, o qual se torna presente na vida do cristão quando aceita a Cristo como seu Senhor e Salvador (Lc 17.21). Os que desejavam viver o Reino espiritual precisam viver segundo os princípios divinos exarados no Sermão do Monte, conforme Cristo ensinara.

Em oposição à unidade do Sermão do Monte, os que se manifestam asseveram que tais ensinos não foram dados de uma só vez ou em um único sermão, por isso apresentam três argumentos: a questão da natureza do material, as porções desconexas e os paralelos em Lucas. No aspecto material, assegura-se que o que se tem em Mateus 5–7 são sumários dos ensinos de Jesus, o que depois seria examinado mais prolongadamente.

Na questão da desconexão, parece haver certas divisões que não se harmonizam bem, tanto antes como posteriormente. A título de exemplo, pode se notar Mateus 5.31,32 e 7.7-11; 6.1-6 e 6.16-18.

Possivelmente, essas partes separadas demonstram que não há ligação entre ambas, mas são pequenas seções de sermões. Nessa concepção, haveria mais ou menos vinte discursos diferentes apresentados por Jesus.

Quanto ao paralelo de Lucas, àqueles que afirmam que com a passagem lucana (Lc 6.17-49), denominada de Sermão da Planície, o que se busca é dizer que tal narrativa é um elemento preponderante para se refutar a unidade do Sermão da Montanha. A primeira coisa a se observar é que boa parte do que consta em Mateus não aparece em Lucas. Enquanto em Mateus encontra-se 107 versículos, Lucas menciona somente 30 destes, além do fato de que há 47 versos de Mateus que não tem qualquer ligação com Lucas. Com essa análise, o que se procura dizer é que não há qualquer unidade do Sermão da Montanha, de modo que de Agostinho até a Reforma Protestante julga-se que o Sermão da Montanha de Mateus é diferente do Sermão da Planície de Lucas.

Para fecharmos esse primeiro ponto quanto ao porquê do Sermão do Monte, nada melhor do que fazer uso do Comentário do Novo Testamento Aplicação Pessoal (2009, p. 36), que diz:

Mateus 5–7 é chamado de Sermão do Monte porque foi proferido por Jesus sobre um monte perto de Cafarnaum. É provável que esse sermão seja resultado de vários dias de pregação. Nele, Jesus revelou sua atitude em relação à lei de Moisés, explicando que ela exige uma fiel e sincera obediência, não uma religião cerimonial. O Sermão do Monte desafiava os ensinos dos orgulhosos e legalistas líderes religiosos daquela época. Ele conclamava o povo para ouvir as mensagens dos profetas do Antigo Testamento que, como Jesus, haviam ensinado que Deus quer obediência sincera, e não mera e legalista obediência às leis e rituais.

Portanto, ainda que perdurem os debates quanto à unidade literária de Mateus 5–7, se Jesus proferiu tal sermão em um só momento ou em diversas outras ocasiões, nada disso retira o brilho dos conteúdos ensinados. Se nos prendermos somente aos detalhes da unidade, deixaremos de perceber as riquezas dos ensinos contidos no Sermão do Monte, os quais nos desafiam a sair de uma vida meramente religiosa e hipócrita para desenvolvermos uma vida de atitudes verdadeiras que partem de corações transformados pelo novo nascimento. (Gomes. Osiel, Os Valores do Reino de Deus: A Relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. 1ª edição: 2022. p. 15-21).

2- A estrutura do Sermão do Monte.

Para compreendermos com precisão a estrutura do Sermão do Monte, é necessário que se esteja atento à expressão que sempre fecha os cinco discursos como aparecem em Mateus, que é: “Quando Jesus acabou…”. O sermão do Monte é um dos primeiros desses discursos, depois há que se atentar para a narrativa que continua como bem se nota dos capítulos 8 e 9 em diante. Robert H. Gundry nos dá uma visão muito ampla do que sejam esses cinco discursos:

Os discursos constantes em Mateus são “sermões” mais ou menos longos, aos quais foram acrescentados ditos isolados de Jesus, em lugares apropriados. Cada discurso termina com esta fórmula: “Quando Jesus acabou de proferir estas palavras…” Os discursos e seus temas respectivos são conforme mostramos abaixo: 1) O Sermão da Montanha (Capítulos 5-7), significado da verdadeira (interna) retidão. 2) A Comissão dos Doze (capítulo 10): Significado do Testemunho em Prol de Cristo (perseguição e Galardões). 3) As parábolas (capítulo 13): Significado do Reino. 4) Sem qualquer título geral (capítulo 18): Significado da Humildade e do perdão. 5) A Denúncia contra os Escribas e Fariseus (capítulo 23 e o Discurso dom monte das Oliveiras, frequentemente chamado “O Pequeno Apocalipse” (capítulos 24 e 25): Significado da Rejeição de Israel. Deus rejeitou a Israel, por haver a nação rejeitado a Jesus, O Messias; ocorrerá um hiato de tempo, Jerusalém será destruída, as nações serão evangelizadas, e então Cristo retornará.

Na estrutura do Sermão da Montanha, Mateus mostra que Jesus faz uma ponte entre o Reino e a justiça (Mt 5.20; 6.33), sendo o arrependimento a condição para a entrada nesse Reino, não a justiça própria, mas a justiça de Cristo. Em seguida, Jesus passa a falar das bem-aventuranças, e podemos notar que o motivo da segunda cláusula é dependente da primeira, por exemplo: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino do céu”. Há uma promessa do Reino para os que são bem-aventurados, sendo essa a agudez das mesmas.

Em prosseguimento, quanto ao aspecto teológico, pode-se perceber o peso desse Sermão no âmbito geral, mas há que se fazer menção a três temáticas que exercem grande impacto e influência na vida do povo de Deus, tanto na consciência como na parte litúrgica, são elas: as bem-aventuranças, a oração do Pai Nosso e a regra áurea (Mt 7.12).

Por intermédio das bem-aventuranças, compreendemos como realmente devem viver os discípulos de Cristo. Por isso que se fala de exigências éticas; elas são condições para que se possa entrar no Reino, envolvendo o aspecto escatológico. Ademais, as exigências éticas dão seguimento a outros temas que irão se desenvolver no corpo do Sermão ensinado por Jesus.

Como acima mencionado, a primeira parte destacada do Sermão da Montanha dirige-se especialmente à consciência, ao passo que a segunda está relacionada à questão da liturgia, na qual Cristo esclarece que a oração feita ao Pai deve ser simples, reconhecer a soberania divina, o endereço da oração e a duplicidade do perdão.

Perdão esse que o orante recebe primeiramente de Cristo para com o Pai, sendo agora capaz de perdoar a qualquer pessoa. Na terceira parte, encontramos a regra áurea, que trata do relacionamento envolvendo as pessoas. Já na altura dos ensinos anteriores feitos por Cristo, nesse ponto central seria como um destaque especial para se cumprir tudo cabalmente. Por meio do ensino de Cristo sobre essa regra, o destaque baseava-se em Levítico 19.18, fazendo então uma ligação com Mateus 22.39, que na visão de Cristo seria o grande mandamento e todo o cumprimento da Lei, e dos profetas.

O Mestre divino estava combatendo o sistema de julgamento criado pelos judeus, que era um tipo de estratégia para não cumprir com as responsabilidades assumidas, não agindo com sinceridade e verdade nos negócios. Em Marcos 8.12, podemos ver que o próprio Jesus fez um juramento. Porém, alguns têm se valido da questão da não resistência para se opor à força militar e policial (Mt 5.39), porém, não era sobre tal procedimento que Jesus estava falando, mas a questão envolvia a forma em que se dava o tratamento entre duas pessoas. (Gomes. Osiel. Os Valores do Reino de Deus: A Relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. 1ª edição: 2022. p. 16-18).

3- A quem se destina o Sermão do Monte?

Lendo Mateus 5.1, parece que somos levados a crer que Jesus abandonou a multidão e foi ao monte e lá apresentou tais ensinos aos discípulos em particular, entretanto quando olhamos para Mateus 7.28, o que se julga é que a multidão ouviu os seus ensinamentos. O mais importante aqui é compreender o real sentido do Sermão do Monte, para que de fato entendamos a quem realmente foi dirigido.

O mais importante é a interpretação do sermão do monte. Há três erros graves amplamente cometidos pela igreja no processo de compreensão do sermão.

O primeiro erro ensina que nenhum mandamento ético nele aplica-se a nós hoje. Assim, o sermão é visto como uma referência à ética do reino de Deus, e, uma vez que o reino de Deus ainda não veio, o sermão é irrelevante para nós agora. Esta é uma séria distorção que parte de um equívoco igualmente grave acerca do conceito do reino de Deus no Novo Testamento.

Jesus subiu ao céu para assumir a função de Rei dos reis; portanto, embora a consumação do seu reino esteja no futuro, pensar que ele está completamente no porvir é uma atitude que negligencia um dos principais pontos do Novo Testamento. Creio que o conteúdo do sermão do monte é muito relevante para nós hoje, bem como para os cristãos de todas as gerações. Com efeito, as virtudes nele expressas também são apresentadas nos ensinamentos dos apóstolos.

O segundo erro é considerar o sermão do monte apenas como uma nova declaração de lei na qual uma ética impossível é apresentada diante de nós a fim de revelar a necessidade do evangelho. Isso é, de fato, uma das coisas que a lei faz – expor a necessidade desesperadora que temos do evangelho – mas acredito que esta seja uma interpretação errônea da essência básica do sermão.

A pior distorção possivelmente surgiu em meio ao liberalismo do século 19. De acordo com ela, o sermão do monte trata do evangelho social. Logo, a ética de Jesus não diz respeito à redenção pessoal, mas tem apenas o objetivo de ensinar comportamento ético à igreja para que a missão dela seja servir como agente de um mero humanitarismo. Isso, naturalmente, suprime não apenas a relevância do sermão do monte, mas de todo o Novo Testamento.

Se atentarmos para o conteúdo do sermão do monte, veremos que, nele, Jesus designa nossa resposta a ele como o teste derradeiro pelo qual todos nós seremos julgados eternamente. Portanto, cuidemos para não sermos pegos na armadilha de tais concepções falsas. O sermão é a Palavra de Deus para nós hoje e para os cristãos de todos os tempos. (Sproul., RC. Estudos bíblicos expositivos em Mateus. 1° Ed 2017Editora CulturaCristã. p. 57-58).

Amados irmãos, entendemos que a ética de Cristo presente no Sermão do Monte pode ser vivida e praticada por cada um de nós; claro, não por nossa própria força, capacidade, mas, sim, por meio da graça de Deus em nossa vida, pela nova posição que desfrutamos por causa da justiça de Jesus implantada em nós, de modo que não podemos jamais olhar para tais palavras como sendo impossíveis de serem cumpridas.

II- AS BEM-AVENTURANÇAS E O CARÁTER DOS FILHOS DE DEUS

1– O que são as Bem-Aventuranças?

O Comentário Pentecostal Bíblico do Novo Testamento concede uma bela definição do que sejam as bem-aventuranças:

Estes pronunciamentos de Jesus obtêm o nome da palavra latina beatitudo, do substantivo relacionado com beatus, que é como a Vulgata traduz o termo grego makarios (Mt 5.3-11). Essa forma de discurso não se originou com Jesus; ocorre frequentemente nos Salmos e na literatura sapiencial do Antigo Testamento, e até os gregos tinham tais discurso. A forma se origina da literatura hebraica e judaica com que Jesus estava familiarizado […]. Ainda que a forma e espírito das bem-aventuranças provenham dos judeus, a singularidade dos ensinos de Jesus mostra que Ele cumpriu sua forma e espírito. Cada beatitude abrange três seções: o estado (i.e., bem-aventurança), a condição e a recompensa. (Comentário Bíblico Pentecostal, 2003, p. 34).

2- O Reino de Deus e seu caráter.

Quando nos referimos ao caráter do Reino de Deus é preciso levar em consideração alguns pormenores. O primeiro deles é que não se trata de um reino de Deus em Cristo Jesus teocraticamente restaurado, como na visão pré-milenista: um reino de Israel; nem tampouco se trata de uma nova condição social realizada por aquele que tem o Espírito Santo em sua vida, trazendo novas leis, educação, boas normas civis, como bem pensam os modernistas. Nenhuma dessas concepções figuram realmente o caráter do Reino de Deus.

Pelo aspecto bíblico, o que caracteriza o Reino de Deus é primeiramente o sentido escatológico. Porém, sabe-se também que o reino presente já acontece na vida e no coração de homens e mulheres que foram regenerados pelo Espírito Santo de Deus, os quais já podem desfrutar das bênçãos da salvação por intermédio de Cristo Jesus (Rm 14.17). Nas Palavras de Jesus, o conceito de Reino tanto tinha seu aspecto escatológico, para tempos futuros, como também para o presente (Lc 17.21). Nesse sentido, falava do Reino no âmbito espiritual.

No aspecto histórico, envolvendo alguns Pais da Igreja, a concepção que se tinha sobre o Reino era de uma realidade futura, afirmando que brevemente Jesus Iria governar em um determinado tempo, ou seja, no Milênio. Para Agostinho, contudo, o Reino tratava-se de uma realidade já presente por meio da Igreja; para os reformadores, porém, o conceito que se tem de Reino é que na presente dispensação ele está ligado à igreja invisível. É lamentável dizer, mas, o conceito escatológico futuro, assim como o presente, vai sendo escamoteado de sua própria essência, visto que por intermédio das concepções de Kant e Ritschl o Reino deixa de ter um conceito religioso, sendo visto tão somente como um reino ético de fins.

Há ainda duas coisas a serem consideradas sobre o Reino e a igreja visível e invisível. Primeiramente, vamos tratar sobre a igreja visível. É considerável que jamais se tenha em mente a ideia proposta pela Igreja Católica quanto ao Reino de Deus e a igreja, pois nela afirma-se que a Igreja pode reclamar ter o poder e o domínio sobre todas as formas de instituições neste mundo, envolvendo o comércio, a arte, a indústria e as organizações políticas e sociais. Os reformadores propuseram também uma interpretação de que, afirmando que certas manifestações da igreja, como por exemplo, entidades cristãs como escolas, organizações de trabalhadores cristãos e organizações políticas cristãs são claramente manifestações da igreja como organismo vivo, dessa maneira, tudo passa a estar debaixo do controle da igreja visível e do controle de seus oficiais.

Entendemos que a Igreja tem sim suas responsabilidades e que pode até manter com elas certas relações, como por exemplo, escolas, hospitais e ONGs. Ao fazer isso, a Igreja está demonstrando o amor de Deus em diversos setores da vida, pois os servos de Deus, com princípios cristãos, passam a manifestar as questões de interesse do Reino de Deus. Entendemos que a Igreja visível não é o Reino, porém serve de instrumento para o estabelecimento e extensão do Reino. Na verdade, o Reino tem maior amplitude do que a Igreja, ele engloba o todo, busca o domínio sobre todas as esferas da vida e é o controle absoluto em todo o mundo.

Há uma ligação plena entre o Reino e a Igreja invisível; só pode fazer parte do Reino e da Igreja invisível àquele que já foi regenerado, de modo que para se estar no Reino é preciso primeiro estar no Corpo de Cristo Jesus. Por isso que, em certos momentos, os cristãos são chamados de Reino e de Igreja. Podemos compreender isso da seguinte maneira: são Reino pelo fato de todos estarem ligados a Deus por meio de Jesus Cristo, sendo que Ele passa a ser visto como o Soberano de todo o Governador; e são chamados de Igreja porque deixaram o mundo, ou seja, separaram-se dele para viverem piedosamente para Deus relacionando-se como membros do Corpo de Cristo.

A Igreja é consciente da existência do Reino presente e vindouro, por isso passa a ser um instrumento de Deus na terra para a introdução da nova ordem que virá, como Reino ela expressa a realização ou o prefácio da ordem ideal entre ambos. (Gomes. Osiel, Os Valores do Reino de Deus: A Relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. 1ª edição: 2022. p. 29-31).

3- Os súditos do Reino de Deus.

Aqueles que desejam fazer parte do Reino de Deus precisam primeiramente se submeter ao seu querer, à sua vontade, por isso Jesus nos ensinou a orar assim: “venha o teu reino, faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu (Mt 6.10, ARA).

Só pode fazer essa oração aquele que realmente já passou pelo novo nascimento, que é a condição necessária para ser admitido no Reino (Jo 3.3,5). O novo nascimento trata da conversão em relação ao Reino (Mt 18.3) e, como anteriormente mencionamos, não se pode fazer parte do Reino nem da Igreja se não estivermos ligados a Cristo, o que só é possível pelo novo nascimento.

Os súditos do Reino evidenciarão as mais belas qualidades, ou melhor, as beatitudes, porque já passaram pela regeneração, atenderam à mensagem e se arrependeram, o que pode ser bem compreendido por meio da palavra “metánoia”, a qual mostra que mudaram suas ideias, pensamentos, abandonaram as más ações, estando prontos para viver uma nova vida e andar em um novo caminho, pois tomaram conhecimento de seus pecados e os rejeitaram de uma vez, fazendo como bem falou o profeta Isaías, para deixar seus pecados, sair dos maus caminhos (Is 1.16,17; 55.7). Gomes. Osiel, Os Valores do Reino de Deus: A Relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. 1ª edição: 2022. p. 22

III- SOMOS BEM-AVENTURADOS

1- A beatitude na vida dos salvos.

Passando pela regeneração, o cristão salvo irá evidenciar qualidades que expressam sua real condição em Cristo Jesus, do íntimo do seu ser trará para o lado externo o que foi implantado por Cristo. Essas bem-aventuranças mostram doravante o quanto tal pessoa vive dentro da vontade do Senhor, o que prova sua nova vida. Quando lemos o Salmo 1, ele descreve o homem bem-aventurado que rejeita todo o procedimento daqueles que não vivem segundo à vontade do Senhor.

O substantivo masculino ‘esher’, felicidade, bem-aventurança, como consta em Salmos 1.1, na verdade, trata-se de um construto plural, as felicidades de… Pela leitura do Salmo, essa felicidade resulta não de um esforço próprio do homem, mas, sim, da confiança plena que deposita grandemente em Deus, vivendo segundo a sua Palavra (Sl 34.8; 119.1,2). Importante ressaltar que quando dissemos que esse termo no português não dá a precisa definição que consta tanto no hebraico como no grego, é que fora de Deus não se pode ter a verdadeira felicidade, e que ela acompanha também a santidade.

Há pessoas que podem expressar ter sua felicidade por meio de uma filosofia ou estilo de vida, todavia, a bem-aventurança do cristão resulta de sua comunhão e fidelidade para com Deus, de modo que ela pode ser vivida e expressada em qualquer circunstância da vida, pois quem faz isso é o poder operante do Espírito Santo na vida do crente salvo.

A felicidade do crente não resulta de seu próprio esforço e não está dentro de si mesmo o que ele deseja, ela vem de cima, a partir de uma nova natureza que é implantada no seu ser (Jo 3.5). Assim, procedendo conforme a Palavra de Deus e obedecendo-lhe, o crente desfruta das bênçãos que acompanham a salvação e na sua vida as bem-aventuranças estarão presentes (Ap 1.3; 14.13; 16.15; 19.9; 20.6; 22.7,14). Gomes. Osiel. Os Valores do Reino de Deus: A Relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. 1ª edição: 2022. p. 22-23.

2- A prova de que o cristão é bem-aventurado.

Porque é grande o vosso galardão nos céus. Disso poderíamos deduzir que a comunidade sofre tantas coisas porque, afinal, será recompensada, porque em última análise representa o pensamento de mérito e recompensa dos fariseus, devotando-se novamente à justificação pelas obras. Mas esse é um grande erro. O texto não se refere ao consolo por uma recompensa no além. Na expressão “nos céus” podemos certamente interpretar: “reinado dos céus”. Como já dissemos, esse reinado dos céus consiste de duas esferas, uma já iniciada e outra ainda futura. Ambas existem simultaneamente, sobrepõem-se, situam-se lado a lado e não uma depois da outra.

Logo, não se deveria falar de uma sequência temporal das duas esferas e da posterior recompensa, mas da simultaneidade do sacrifício de sofrimento dos discípulos e da aceitação pelo Senhor já agora. Em outras palavras: Quando aqui se está rejeitando, lá se está reconhecendo. Enquanto aqui em baixo as pessoas ferem os discípulos, o Senhor os trata e cura. Enquanto aqui as pessoas lhes causam injustiça, o Senhor lhes faz o bem sem cessar, já aqui e agora, mas de forma inicial (incógnita). Porém então o fará de modo pleno (público), glorioso e grandioso, para todas as eternidades.

Seria melhor traduzir a palavra “recompensa” com retribuição no sentido de gratidão, de presentear com glória divina imerecida. Esse presente da glória de Deus será conferido ao seguidor de Cristo realmente, isto, é, visivelmente para todas as eternidades, sem fim, em crescente plenitude. Um presente desses não está em nenhuma proporção com nosso sofrimento e trabalho para o Senhor. Por isso não se pode falar de interpretar a palavra “recompensa” no sentido de “pagamento por um serviço prestado”! (Fritz Rienecker. Comentário Esperança Evangelho de Mateus. EditoraEvangélicaEsperança.1° Ed. 1998.

Todas essas qualidades são as provas reais de que o crente realmente é bem-aventurado, assim podemos fechar esse ponto citando John Stott, que falando sobre as bem-aventuranças pontua:

As bem-aventuranças definem o caráter de um cristão, um seguidor de Cristo. Não se trata de oito tipos separados e distintos de discípulos – alguns que são humildes, outros que são misericordiosos e ainda outros que são chamados a sofrer perseguição. Em vez disso, são oito qualidades a serem encontradas na mesma pessoa – uma que seja humilde e misericordiosa, pobre em espírito e pura de coração, chore e tenha fome, seja pacificadora e perseguida, tudo ao mesmo tempo. Além disso, aqueles que exibem essas marcas não são precisamente um grupo elitista, um conjunto de santos espirituais ou líderes da Igreja que vivem acima dos cristãos comuns. Pelo contrário, as bem-aventuranças são a própria especificação de Jesus sobre o que cada cristão deveria ser. Todas essas qualidades devem ser características de todos os seus seguidores. (STOTT, John. Lendo o Sermão do monte com John Stott. Viçosa, MG: Ultimato, 2018, p16).

CONCLUSÃO

O Sermão do Monte é a base ética do Reino de Deus. Nele, constatamos o lado divino de uma atitude amorosa do cristão para com Deus, bem como para com o próximo. Se cada crente fizesse do Sermão do Monte o seu norte ético de vida, as polêmicas não teriam lugar entre nós, não haveria espaço para meras opiniões intelectuais, visto que o propósito deste sermão é que cada crente seja como Deus quer que ele seja.

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