O poder transformador do Evangelho para a cidade

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O evangelho não é para a cidade ou para o interior, o evangelho é para o ser humano.

É inegável que a população mundial está cada vez mais urbana. O êxodo rural acentuou-se com a industrialização e hoje, a maioria absoluta da população, não apenas no Brasil, mas no mundo todo, vive em cidades.

O evangelho não é para a cidade ou para o interior, o evangelho é para o ser humano, todavia, o lugar onde o homem está deve ser objeto de minuciosa análise por parte do evangelista. Se o agente convencedor do pecado não é humano, mas sim o Espírito Santo (Jo 16:8), a busca por métodos contextualizados para a evangelização é responsabilidade do evangelista (1 Co 9:22), claro, nunca separada da capacitação do Espírito Santo para testemunhar (At 1:8).

No Brasil, a urbanização já atingiu 85% da população. Isso quer dizer que, a cada 100 brasileiros, mais de 80 vivem em grandes ou pequenas cidades. Em questões mais globais, existem no mundo 20 cidades com mais de 10 milhões de habitantes; mais de 60 com mais de 4 milhões e mais de 400 com mais de 1 milhão.

Se é nas cidades que a maior parte da população mundial está, logicamente é ali onde residem os problemas sociais decorrentes da presença do homem, pois a queda deformou a perfeição de tudo o que o Senhor nosso Deus criou.

Ao flertar com satanás, o primeiro casal humano atraiu consequências imediatas para si, mas não apenas, as consequências recaíram também sobre toda a raça humana que viria depois deles (Rm 5:12).

Pelo pecado a comunhão com Deus tornou-se medrosa (Gn 3.8-10); A amizade com Deus tornou-se inimizade (Rm 5.6-8); A submissão gratificante a Deus tornou-se rebeldia contra a Sua glória e governo; A beleza da perfeição trocou-se para corrupção, dissolução, enfermidade e tristeza. A presença graciosa trocou-se pela separação (Gn 3.22-24); As perfeições tornaram-se vaidades e o homem ficou destituído da glória de Deus (Rm 3.23).

Os impactos da queda são primeira e principalmente espirituais, todavia também alcançam todas as dimensões da civilização, corrompendo a criatura, razão pela qual, onde o homem estiver é inevitável a existência de conflitos, mentira, violência, etc. É por causa do pecado que o perfeito é contaminado. É por causa do pecado que o belo é deformado. É por causa do pecado que a corrupção instala-se e transforma o ambiente de convívio em um lugar insalubre e não raramente, contraditório a fé e os valores do reino.

Nesse sentido, o Pr. José Alves destaca que as cidades já nascem deformadas: “As cidades em si não são ruins ou corruptas, mas acabam tornando-se centros de impiedade por causa das pessoas que ali moram. Aliás, a degradação de uma sociedade é algo que acontece de cima para baixo, ou seja, inicia-se nos altos escalões da sociedade urbana e vai descendo até o povo, corrompendo-o”.

Diante das consequências do pecado, as boas práticas de gestão são insuficientes para transformar cidades. Diante das consequências do pecado, um bom IDH ou renda per capita alta são insuficientes para transformar cidades. Se indicadores econômicos fossem parâmetro para fazer frente a queda da humanidade, então, Finlândia, Noruega e Suíça seriam o paraíso na terra, mas não são! Ricos também precisam ser regenerados.

Diante das consequências do pecado, regimes de governo, sejam eles quais forem, são insuficientes para transformar cidades, por exemplo, como cristãos prezamos pela liberdade, logo a democracia é um regime que nos entusiasma, pois valoriza grandemente a liberdade. Em 11 de novembro de 1947, em discurso na Câmara dos Comuns, Winston Churchill, com sua peculiar ironia exalta a democracia dizendo: “A democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais”.

Todavia, a democracia é incapaz de transformar a realidade de uma cidade. Aliás, nas palavras de C. S. Lewis, um cristão deve prezar pela democracia, mas justamente por ter uma visão realista sobre a natureza humana:

“Sou democrata porque creio na Queda do ser humano. Acho que a maioria das pessoas é democrata pelo motivo oposto. Grande parte do entusiasmo democrático resulta das ideias de gente como Rousseau, que acreditava na democracia por pensar que a humanidade é tão sábia e boa que todos merecem tomar parte no governo. O perigo de defender a democracia nesses termos é que nada disso é verdade. E, toda vez que a fragilidade é exposta, os que preferem a tirania se beneficiam. Verifico que eles não falam a verdade sem precisar olhar pra nada além de mim mesmo. Não mereço participar nem do governo de um galinheiro quanto mais de uma nação. A verdadeira razão para a democracia é exatamente o oposto. A humanidade caiu tanto que ninguém pode exercer sobre os outros um poder sem controle. Aristóteles disse que algumas pessoas só servem para serem escravas. Não vou discordar dele, mas rejeito a escravidão porque não vejo ninguém qualificado para ser senhor de escravos”.

Cientes dessa realidade, só nos resta a confiança no poder transformador do evangelho (Rm 1:16).

Quando olhamos para os números do evangelicalismo brasileiro rapidamente nos empolgamos e as vezes até nos gloriamos de sua expressão, afinal, segundo afirmação do pesquisador do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) Cláudio Dutra, “o número de evangélicos no Brasil cresceu cerca de 61,5 por cento em dez anos, com 16 milhões de novos fiéis”. Segundo a pesquisa, entre 2000 e 2010, o total de evangélicos no Brasil subiu de 26,2 milhões para 42,3 milhões em 2010. A proporção dos evangélicos em relação à população do país avançou de 15,5 por cento para 22,2 por cento. Em 1991, eles representavam apenas 9 por cento da população.

Em um país de tradição cristã, agora observa-se uma migração do catolicismo para o protestantismo. “Após cinco séculos de predomínio da Santa Sé, vem aí a era da maioria evangélica — os ‘crentes’. A previsão é de José Eustáquio Alves, doutor e pesquisador em demografia.

Todavia, diante de expressivos números é inevitável nos questionarmos: O evangelho que estamos pregando e vivendo está transformando nossas cidades?

Infelizmente, muitas igrejas se limitam a exercer suas atividades de forma interna, fechadas entre quatro paredes. A igreja precisa se conscientizar de que ela está inserida na sociedade para servi-la de forma integral.

O Comitê de Lausanne, após requisitar uma consulta para discutir o tema da relação entre responsabilidade social e evangelização, chegou à conclusão de que seria mais fácil dividir a responsabilidade social cristã em duas categorias, “serviço social” e “ação social”, e foram separadas da seguinte forma:

a) SERVIÇO SOCIAL: Socorrer o ser humano em suas necessidades; Atividades filantrópicas; Procurar ministrar a indivíduos e famílias; e Obras de caridade;

b) AÇÃO SOCIAL: Eliminar as causas das necessidades; Atividades Políticas e econômicas; Procurar transformar as estruturas da sociedade; e Busca da Justiça.

Com o passar dos anos e com o crescimento do Evangelho e consequentemente da Igreja, algumas necessidades foram surgindo e tomando o lugar muitas vezes das necessidades básicas. Com isso, a Igreja foi perdendo sua referência inicial (Atos 2) e infelizmente deixou para trás muitas ideologias cristãs ensinadas por Jesus e princípios bíblicos.

Russell P. Shedd em seu livro “Justiça Social e a Interpretação da Bíblia” comenta como a justiça social esteve presente em boa parte do Antigo Testamento onde as leis de Israel foram instituídas por Deus a fim de criar e manter uma sociedade justa para todos os seus membros, independente de classe ou posição, e que Deus rejeita totalmente qualquer separação entre religião e justiça, pois a legislação social e as regras de culto são justapostas no Pentateuco para sublinhar o princípio de que Deus ordena aos homens e mulheres que não só mantenham uma relação vertical adequada com ele, mas também atribuíam a necessária importância ao seu relacionamento com a criação e, especialmente, com o seu próximo.

Já no Novo Testamento a Teologia não está dissociada da vida, os cristãos são obrigados a praticar a retidão, e a levantar suas vozes contra a injustiça. Só assim terão condições de demonstrar fidelidade a Deus e a veracidade de sua profissão de fé como cristãos membros da Igreja, cujo cabeça é Cristo.

A Palavra de Deus é incisiva quando trata da questão social da igreja: “Não te furtes de fazer o bem a quem de direito, estando na tua mão o poder de fazê-lo. Não digas ao teu próximo: Vai e volta amanhã; então, te darei, se o tens agora contigo” (Pv 3:27-28).

Para Martinho Lutero Lutero, famoso reformador, pregador e teólogo, o elemento religioso é construído na história, em meio aos fenômenos sociais, aos políticos e aos econômicos. Ainda segundo Lutero, o cristão é cidadão pertencente ao Reino de Deus e ao reino deste mundo, e sob o prisma de Lutero, o ser humano é responsável diante de Deus e da autoridade civil. Por isso mesmo, ele dá ênfase ao papel social do cristão em suas 95 teses, dentre elas destacamos:

43º – Os cristãos devem ser ensinados que aquele que dá ao pobre ou empresta ao necessitado pratica uma obra melhor do que comprar perdões.

45º – Os cristãos devem ser ensinados que aquele que vê um homem em necessidade, e passa por ele, e dá (seu dinheiro) por perdões, não compra as indulgências do papa, mas a indignação de Deus.

Afinal de contas, qual a relação entre responsabilidade social e evangelização? Neste sentido, lembra Stott:

“Muitos temem que quanto mais nós, os evangelicais, nos comprometermos com um, tanto menos estaremos comprometidos com o outro, e que, caso nos comprometamos com ambos, um dos dois com certeza sairá prejudicado; e, especialmente, que uma preocupação com a responsabilidade social certamente acabará embotando nosso zelo evangelístico. Ao contrário do que muitos pensam, entendo que a tarefa da Igreja deve abarcar as duas ações, a evangelizadora e a social. Ora, se houver fidelidade ao Evangelho de Jesus, a Igreja não cometerá o equívoco de priorizar uma ação em detrimento da outra. No entanto, creio, ainda, que se deve usar o bom senso ao decidir qual será a atividade a encabeçar o contato da Igreja com dada comunidade. Conquanto devam andar juntas, a evangelização e a ação social podem existir independentemente”.

Amar ao próximo é o segundo maior mandamento da Bíblia, depois de amar a Deus sobre todas as coisas. Todos as outras regras dependem desses dois mandamentos.

Todavia, há outro lado da mesma moeda a ser considerado.

Em nome das boas obras e do amor ao próximo, não se pode transformar o evangelho apenas em uma missão social, muito menos socialista. Apenas praticar caridade e boas ações não transforma alguém em discípulo de Jesus. A grande comissão (Mt 29:19 – Mc 16:15) não nos envia para fazer caridade, mas sim discípulos.

Na verdade todo o discípulo de Jesus pratica boas obras (Mt 5:16), mas nem todos os que praticam boas obras são discípulos de Jesus. A motivação é determinante. Afinal de contas maçons, espíritas e inúmeras entidades praticam obras louváveis, mas somente isso não os faz discípulos de Jesus.

Ao olharmos para o contexto do sermão da montanha, vemos que antes de falar na pratica de boas obras Jesus elenca uma série de bem aventuranças, e elas dizem respeito a humildade de espírito, justiça, misericórdia, pureza, pacificação e perseguição.

A igreja precisa ser eficiente no serviço social, mas o evangelho de Jesus é capaz de transformar a base, eliminando os motivos da desigualdade. Nesse ponto compartilho das inquietações do Pr. Alves que em seu livro Missão Urbana questiona:

Se a Igreja cresce, por que o nível de marginalidade não diminui?
Se a Igreja cresce, por que o nível de imoralidade não diminui?
Se a Igreja cresce, por que o nível de violência não diminui?
Se a Igreja cresce, por que o nível de corrupção política não diminui?
Se a Igreja cresce, por que o número de divórcios não diminui?

A inexistência da relação inversamente proporcional já nos mostra que nosso evangelismo e a pratica do evangelho cremos, no mínimo necessita de atenção, e não importa quanta caridade façamos.

O evangelho é sim uma das mais poderosas armas de transformação social, mas não por causa da ação social. Essa decorre da transformação profunda que o Espírito Santo gera no crente (Efésios 4:28 – Filipenses 4:8 – 1 Pedro 1:15 – 2 Coríntios 7:1 – 1 Tessalonicenses 4:7).

Se quisermos ver nossas cidades transformadas precisamos viver o evangelho de Cristo na sua totalidade. Não devemos nos enganar pensando que todos os frequentadores de templos ou filantropos são discípulos de Jesus.

Discípulos de Jesus são aqueles que nasceram de novo (Jo 3:3 – Rm 6:4) e negando a si mesmos (Lc 9:23) seguem os mandamentos do Cristo ressuscitado (Jo 14:15).

Por Daniel Fich (Pastor presidente da Igreja Assembleia de Deus de Lajeado/RS; Advogado, OAB/RS 94.097)

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