A “teologia coaching” e seus perigos

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De tempos em tempos surge no mundo secular alguma nova técnica, metodologia ou fórmula com a promessa de proporcionar ao ser humano desenvolvimento, motivação e sucesso pessoal e profissional. Talvez você se lembre do movimento da autoajuda, a programação neurolinguística ou “o segredo” do “poder da atração”, que ficaram conhecidos por meio de especialistas e gurus que prometiam como alcançar realização e felicidade plena, enquanto eles mesmos enriqueciam com a venda de livros e métodos supostamente infalíveis.

Considerando que não há nada de novo debaixo do sol segundo Salomão (Ec. 1.9), nos últimos anos a bola da vez no mundo do desenvolvimento pessoal é o chamado coaching. Segundo seus proponentes, o coaching é um processo, ou um conjunto de competência e habilidades, para que as pessoas consigam atingir objetivos na vida pessoal, profissional e financeira[i]. A metodologia consiste em um instrutor (coach), que ajuda e orienta seu aprendiz (coachee) a alcançar os resultados perseguidos, valendo-se de ferramentas de gestão e técnicas psicológicas.

No ambiente cristão, da mesma forma que ocorreu com o movimento da autoajuda, o coaching também encontrou espaço em muitos púlpitos das igrejas cristãs. Na sequência da onda da teologia da prosperidade e do triunfalismo materialista, que acarretaram (e seguem acarretando) danos à verdadeira espiritualidade bíblica, em nome das bênçãos terrenas, infelizmente vimos surgir e proliferar, como erva daninha, uma onda de pregações envenenadas de linguagem antropocêntrica e de técnicas coaching. Impulsionada principalmente pelas redes sociais, essa teologia coaching, como tem sido nomeada, segue encantando a muitos, por meio de uma mensagem superficial, autorreferente e baseada em um espiritualidade pós-moderna hedonista.

Com sabedoria bíblica, é claro, precisamos discernir as coisas. Criado à imagem de Deus (Gn 1.26), sabemos que o homem possui valor e dignidade. Essa a razão pela qual existe no ser humano um senso de estima e cuidado pessoal. Paulo expressou isso ao dizer: “Porque nunca ninguém aborreceu a sua própria carne; antes a alimenta e cuida, como também o Senhor à Igreja” (Ef.5.29). Isso significa que não é bíblico desprezar o valor da pessoa humana, muito menos alimentar um sentimento de desconsideração por si mesmo. Mas observe que esse comportamento humano é algo natural, que advém da sua posição de honra na criação divina (Hb 2.7). Eis o motivo pelo qual Jesus afirmou: “Ame a seu próximo como si mesmo” (Mt 23.39). Pelos textos bíblicos, percebemos que nem o Mestre Jesus e nem o apóstolo Paulo estão mandando que amemos a nós mesmos. Eles partem desse pressuposto essencial da natureza humana, para usar como diretriz a fim de que amemos ao próximo; isso sim um mandamento. Em razão da propensão à corrupção, o desejo carnal do homem é sempre buscar os seus interesses individuais.

Ao mesmo tempo, é válido reconhecer os aspectos positivos da busca pelo crescimento intelectual e espiritual, pelo empenho e prática de hábitos que levem ao desenvolvimento sadio do indivíduo. A sabedoria bíblica nos apresenta conselhos e diretrizes para uma vida de êxito, destacando a importância de fazermos as coisas com empenho (Ex 9.10), e tudo para a glória de Deus (1 Co 10.31). Somos instruídos sobre a necessidade do bom planejamento (Lc 14.28-30) e do uso adequado do tempo (Ef. 5.15).

O exercício prático dessas virtudes, com vistas à maturidade, contudo, nem sempre é algo fácil. Por isso encontramos ao longo das Escrituras exemplos de grandes homens de Deus que foram instruídos e aconselhados por outros. Josué cresceu sob a liderança de Moisés; Eliseu foi orientado por Elias; Ezequias ouvia os conselhos do profeta Isaías, e Paulo instruiu o jovem Timóteo. Portanto, é necessário reconhecer a importância da instrução, do conselho e da orientação de pessoas mais experientes, que servem de exemplo de vida (Pv 4.10-24), afinal, somos seres limitados e imperfeitos.

Ocorre que a chamada teologia coaching está longe disso, pois contém em seu interior um conjunto de pressupostos, discursos e estratégias que destoam completamente da legítima mensagem do Evangelho, e por isso oferece diversos perigos para a ortodoxia e piedade cristãs.

Em primeiro lugar, há o perigo da imitação do mundo. Em uma de suas advertências características, A. W. Tozer escreveu que o primeiro ritual que tem dominado o cristianismo contemporâneo é a imitação daquilo que se vê do lado de fora da igreja, sem considerar as consequências[ii]. Infelizmente, essa triste realidade é percebida quando cristãos insistem em transportar para o ambiente eclesiástico modismos advindos do mundo secular, pelo simples fato de ser uma tendência ou inovação do momento. A teologia coaching nada mais é do que a psicologia humanista envernizada, empacotada e vendida para o consumidor cristão incauto. Devemos lembrar da advertência divina ao seu povo sobre o perigo em imitar os povos pagãos idólatras (Dt 12.30).

Em segundo lugar, a teologia coaching é nociva à ortodoxia e à espiritualidade genuína em razão do seu fundamento e conteúdo antropocêntrico, que se volta basicamente para a satisfação dos desejos, sonhos e objetivos humanos. É a antiga cilada da serpente para que o homem persiga o seu interesse e não a vontade de Deus (Gn 3.1-5). Trata-se de uma versão atualizada do Evangelho da Autoajuda, a qual se vale de fórmulas psicoterápicas para a exaltação do ego e conduz os homens a serem amantes de si mesmos (2Tm 3.1). Mais grave ainda, cuida-se de uma renovação da antiga heresia gnóstica, que, dentre outras coisas, busca a perfeição através do autoconhecimento. Contra o ensino do gnosticismo no meio da igreja, vale lembrar, o apóstolo Pedro escreveu a sua segunda carta, enfatizando que os falsos mestres introduziriam encobertamente heresias de perdição, fazendo seguidores e lucrando com palavras fingidas (2Pe 2.1-3). Não é exatamente este cenário que também percebemos atualmente? Pedro contrapõe a mensagem antropocêntrica com o verdadeiro ensino do Evangelho, ao destacar que as bênçãos que dizem respeito à vida e piedade são alcançadas pelo conhecimento de Deus (1 Pe 1.2-4), não pelo autoconhecimento.

Em terceiro lugar, a teologia coaching é perigosa porque os pregadores que nela se baseiam não pregam todo o conselho de Deus (At. 20.27). Os pregadores e pastores coaching confundem suas pregações com palestras motivacionais e sessões de desenvolvimento humano, extraindo de passagens bíblicas isoladas receitas de sucesso ou dicas para o êxito pessoal e profissional. Embora as palavras de inspiração tenham importância na vida cristã, quando devidamente embasadas e aplicadas, a verdadeira pregação bíblica ocorre por meio da exposição das Escrituras, que serve para ensinar, para redarguir, para corrigir e para instruir em justiça (2Tm 3.16).

Por fim, a superficialidade dos discursos retóricos coaching enfraquecem a fé e transformam a espiritualidade em mera satisfação e bem-estar emocional, ao tempo em que esquecem de temas como santificação, renúncia pessoal e, principalmente, a cruz de Cristo. Existem diferentes dons e diferentes ministérios, em razão da multiforme graça de Deus (1 Pe 4.10). Mas toda teologia e toda pregação devem conduzir a Cristo, e este crucificado (1 Co 2.2).

Pr. Valmir Nascimento

*Artigo publicado no Mensageiro da Paz, Novembro/2021, edição n.º 1638, p. 16.

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