EBD – O ZELO DO APÓSTOLO PAULO PELA SÃ DOUTRINA

Pr. Sérgio Loureiro
Pr. Sérgio Loureiro
Sou o Pastor Sérgio Loureiro, Casado com Neusimar Loureiro, Pai de Lucas e Daniela Loureiro. Graduando em Administração e Graduando em Teologia. Congrego na Assembleia de Deus em Bela Vista - SG
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Prezados professores e alunos,

Paz do Senhor!

“Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina; persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem.” (1Tm 4.16)

DEFINIÇÃO DA PALAVRA ZELO

O dicionário Houaiss define a palavra “zelo” como “grande cuidado e preocupação que se dedica a alguém ou algo” (2001, p. 2905). Teologicamente pode ser definido como: “desvelo ardente por alguém” (ANDRADE, 2006, p. 365). O termo grego é “zelos”. A palavra grega “zeein” (“borbulhar, ferver”) acha-se à raiz da ideia de “zelo” (CHAMPLIN, 2004, pp. 725,726).

Também encontramos “zelo” como “esforços intensos e sinceros para alcançar um alvo” (Novo Testamento, Dicionário Internacional de Teologia, p. 2684). No contexto da lição, esta é uma virtude presente na vida do apóstolo Paulo, em relação a sua preocupação com a doutrina e com a igreja de Jesus Cristo. Ele reconheceu que, para munir a igreja contra os ataques à sã doutrina, Deus deu levantou homens preparados, com o intuito de promover o amadurecimento dos crentes:

“E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e ao conhecimento do Filho de Deus, a varão perfeito, à medida da estatura completa de Cristo,” (Ef 4.11-13).

Em seu zelo, Paulo ordenou ao obreiro Timóteo ter cuidado de si mesmo e da doutrina:

“Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina; persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem. (1 Tm 4.16).

E a Tito exortou dizendo: “[…]na doutrina, mostra incorrupção” (Tt 2.7).

O QUE É DOUTRINA

Doutrina é palavra de origem latina, cujo significado é “conjunto coerente de ideias fundamentais a serem transmitidas, ensinadas”. Em latim, “doctrina” significa “ensino, instrução dada ou recebida, arte, ciência, doutrina, teoria, método”. Assim, a doutrina é um ensinamento, uma instrução que alguém dá a outrem. Aliás, a palavra “doctrina” é derivada de “docere”, que significa ensinar. Doutrina, portanto, é um ensinamento, um ensino, uma instrução que alguém que sabe (o sábio ou “doutor”) dá a alguém que não sabe (o aprendiz).

Vemos, portanto, pelo seu significado latino, que “doutrina” significa ensino e, portanto, quando falamos em “doutrina bíblica” estamos a falar no “ensino da Bíblia”. Ora, a Bíblia é a Palavra de Deus e, portanto, o “ensino da Bíblia” nada mais é que o ensino da Palavra de Deus, o ensino de Deus ao homem. “Doutrina”, portanto, é o ensino que Deus dá ao homem a partir da Sua Palavra, da revelação divina à humanidade, que consta da Bíblia Sagrada.

A primeira vez que surge a palavra “doutrina” nas Versões Almeida (Revista, Corrigida, Fiel e Contemporânea) é em Dt 32.2, leiamos:

“Goteje a minha doutrina como a chuva, destile o meu dito como o orvalho, como chuvisco sobre a erva e como gotas de água sobre a relva.”

Onde, no cântico de Moisés, consta a expressão “goteje a minha doutrina”, palavra que é a tradução de “leqach”, cujo significado é “ensino”, “instrução”, tanto que a palavra é traduzida por “ensino” em outras versões bíblicas (como a Tradução Brasileira, a Nova Tradução na Linguagem de Hoje e a Nova Versão Internacional). Neste primeiro aparecimento da palavra, ainda que em um contexto poético, percebe-se claramente que Moisés considera que todos os ensinos que havia dado ao povo de Israel, ensinos estes que eram resultado da revelação divina ao próprio Moisés, constituíam ensinos que deveriam ser continuamente ministrados ao povo e que representavam para este povo a sua própria fonte de vida, a sua própria renovação, pois deveriam estes ensinos “gotejarem”, ou seja, pouco a pouco, de forma contínua e permanente, cair sobre o povo, a fim de lhe dar vida, assim como a chuva e o orvalho, pela manhã, fazem em relação à terra.

Esta expressão de Moisés, também, mostra-nos que a doutrina é algo que vem do alto, que vem do céu, seja na forma de chuva, seja por meio da condensação do vapor d’água encontrado no ar(o orvalho), indicando-se que a doutrina não é obra do homem, mas resultado da revelação divina, de um ensino vindo diretamente da parte do Senhor.

Por fim, a expressão de Moisés dá-nos a nítida noção de que o trabalho da doutrina é manter a vida e uma vida renovada no ser humano, pois é comparada ao chuvisco sobre a erva e a gotas d’água sobre a relva. Todos nós já divisamos, pela manhã cedinho, o orvalho que está a manter molhadas as ervas e a relva, mantendo-as bem verdes, dando-lhes vida, vigor e exuberância (i.e., beleza).

Os campos verdes, pela manhã, aquele frescor que sentimos quando nos encontramos em uma área verde logo pela manhã, que tão bem nos faz à saúde, é o resultado desta ação refrescante da chuva e do orvalho. Este é o papel da doutrina em nossa vida espiritual: refrigério para a nossa alma, renovação de nossas forças espirituais, concessão de beleza e de prazer aos nossos corações e a todos quantos travam contacto conosco. Bem se vê, portanto, que bem ao contrário dos que dizem que a doutrina torna o homem insensível a Deus, vemos que o papel da doutrina é precisamente o de nos conceder vida, vida abundante, refrescor e sensibilidade diante de Deus e dos homens.

PAULO E O SEU ZELO PELA SÃ DOUTRINA

Fazendo alusão à sua vida passada no judaísmo, Paulo se descreveu como um fariseu extremamente zeloso

“Quanto a mim, sou varão judeu, nascido em Tarso da Cilícia, mas criado nesta cidade aos pés de Gamaliel, instruído conforme a verdade da lei de nossos pais, zeloso para com Deus, como todos vós hoje sois. E, na minha nação, excedia em judaísmo a muitos da minha idade, sendo extremamente zeloso das tradições de meus pais. (At 22.3; Gl 1.14).

Quando se converteu a Cristo, seu zelo tornou-se ainda maior. A diferença é que antes combatia com a espada; agora, em Cristo, combatia com a Palavra. Como um fiel servo de Deus, o apóstolo demonstrou:

Zelo pela igreja. Na segunda epístola aos coríntios, encontramos uma expressão do apóstolo Paulo que descreve seu zelo pela igreja:

“Porque estou zeloso de vós com zelo de Deus; porque vos tenho preparado para vos apresentar como uma virgem pura a um marido, a saber, a Cristo” (2 Co 11.2).

O presente texto mostra o zelo paulino pela virgindade moral e espiritual da igreja de Cristo. Segundo certo comentarista, “vemos aqui a imagem de um pai amoroso, cuja filha está noiva e prestes a se casar. Sente que é seu privilégio e dever o mantê-la pura, a fim de poder presentá-la a seu marido, com alegria, e não com pesar. Paulo vê a igreja local como essa noiva, prestes a se casar com Jesus Cristo (ver Ef 5.22ss e Rm 7.4). Esse casamento só ocorrerá quando Cristo voltar para buscar sua noiva (Ap 19.19).

Enquanto isso, a igreja – e isso significa os cristãos, enquanto indivíduos – deve-se manter pura e se preparar para o encontro com seu Amado” (WIERSBE, 2007, p. 875).

Zelo pela doutrina. Paulo havia recebido um comissionamento divino para evangelizar (At 26.18) e para cuidar da igreja de Cristo, mantendo a sã doutrina (2 Co 11.2). Ele havia recebido do Senhor o que ensinava (1 Co 11.1; Gl 1.11,12) e da tradição apostólica (1 Co 15.1-4). Por isso, antes de sair a pregar, cumprindo este chamado, teve a preocupação de expor o evangelho que pregava aos apóstolos que andaram com Cristo, para que não trabalhasse em vão (Gl 2.1,2). De forma que considerava anátema quem alterasse o evangelho que pregava, ainda que fosse ele mesmo, um anjo do céu ou qualquer outra pessoa (Gl 1.8,9).

ORTODOXIA VERSUS HETERODOXIA

A ortodoxia consiste na conformidade a formulações oficiais da verdade. A não-conformidade forma a heterodoxia ou heresia. Às vezes, um homem que é rigidamente ortodoxo quando frequenta uma igreja, em um dos lados de uma rua, imediatamente é considerado herege, quando atravessa a rua e entra em outra igreja, de outra denominação, embora ambas se intitulem cristãs. Uma Útil Citação “Os elementos essenciais do cristianismo não jazem nas palavras das fórmulas dogmáticas, mas na realidade imutável, somente parcialmente compreendida pelo intelecto e somente parcialmente capaz de ser expressa por meio de palavras, que frases transitórias, presas ao tempo e a formas de pensamento, procuram exprimir. Não obstante, isso não significa que o conceito de ortodoxia é algo sem sentido e evanescente. Há uma tradição central e coerente de doutrina e prática cristãs que em muito pouco é afetada pelos extremos das variações denomínacíonais e faceionaís. Essa tradição gira em tomo das doutrinas gerais da Trindade, da encarnação, da expiação e do uso das ordenanças, o batismo e a eucaristia. Desviar-se desse âmago não é próprio do cristão autêntico; e a heresia consiste na recusa, baseada na opinião pessoal, de crer e adorar juntamente com a Igreja”. (CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Editora Hagnos. Vol. 4. pag. 634-635).   

É heterodoxia posando de ortodoxia. E apenas uma terminologia eufêmica usada para camuflar o fato de que seus proponentes rejeitam mesmo a ortodoxia bíblica, que normalmente chamam de “ortodoxia rígida”. Os emergentes dizem que são bíblicos, mas, contraditoriamente, relativizam a Bíblia e reivindicam que a teologia cristã precisa ser flexível e submetida a constantes reexames, a “reformulações eternas”, sendo sempre adaptada à realidade hodierna. No caso de nossos dias, adaptada à pós modernidade. Justamente por isso, as igrejas emergentes não têm uma postura doutrinária definida ou uma exposição doutrinária definitiva, até em relação às doutrinas bíblicas fundamentais. Praticamente, os únicos pontos sólidos em seu pensamento é a existência de Deus e a Salvação por meio de Jesus, e neste último ponto ainda há muita contradição, fruto de sua tendência ecumênica. Além disso, os emergentes não percebem que, mesmo sustentando esses dois pontos (e o segundo bem timidamente), o fato de terem relativizado os outros pontos doutrinários fundamentais acabou afetando até mesmo os pontos que lhes restaram. Afetaram a definição bíblica de Deus e o próprio conceito bíblico de Salvação. A tendência ao ecumenismo religioso provoca isso e é ela que está por trás da proposta denominada “ortodoxia generosa”. (Daniel., Silas. A Sedução das Novas Teologias. Editora: CPAD. pag. 105-106).     

Na teologia cristã, a ortodoxia refere-se à manutenção das “sãs palavras”

“Conserva o modelo das sãs palavras que de mim tens ouvido, na fé e no amor que há em Cristo Jesus.” (2 Tm 1.13)

A definição técnica para a palavra “ortodoxia” diz respeito à “absoluta conformidade com um princípio ou doutrina”. Na língua grega do Novo Testamento, essa palavra tem o prefixo orthos e significa “aquilo que é direito, reto, certo”

“Mas o Espírito expressamente diz que, nos últimos tempos, apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores e a doutrinas de demônios, pela hipocrisia de homens que falam mentiras, tendo cauterizada a sua própria consciência, (1 Tm 4.1,2).

A doutrina cristã é ortodoxa enquanto ela for mantida exatamente como Cristo a deixou e ensinou aos seus discípulos. Já a falsa doutrina é heterodoxa, porque ensina “doutrina diferente, falsa que nada tem com a genuína doutrina de Cristo”. (Cabral. Elienai,. O Apostolo Paulo, Lições de Vida e Ministério do Apostolo do Gentios para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. Ed. 1, 2021).   

Mas esse esforço foi saudado amargamente, como herético e apóstata. E, paralelamente a isso, surgiu outra força, a do gnosticismo, que misturava ideias judaicas com a filosofia grega, com as religiões e mitologias orientais, sobretudo aquelas das religiões misteriosas. O gnóstico Márcion aceitava somente algumas epístolas paulinas e uma forma mutilada do evangelho de Lucas, como seu cânon sagrado, mas ele rejeitava o Antigo Testamento em sua inteireza.

Então a Igreja cristã precisou manifestar-se acerca do cânon das Escrituras Sagradas. Ao fazê-lo, a Igreja aceitou o Antigo Testamento, mas sob uma forma adaptada, de acordo com a qual várias antigas interpretações foram rejeitadas, e novas interpretações tomaram o seu lugar. Foi com base nessas circunstâncias, que surgiu uma forma de ortodoxia cristã. O Novo Testamento forma a base dessa ortodoxia cristã, e os pronunciamentos dos concílios definiram e delinearam crenças. Porém, deve ficar entendido desde o princípio que nem todas as ideias foram igualmente aceitas. Antes de tudo, devemos considerar a cisma, quanto a algumas questões importantes, entre as igrejas cristãs Oriental e Ocidental.

Posteriormente, a Igreja Ocidental fragmentou-se, durante a Reforma Protestante; e vem-se fragmentando cada vez mais, desde então. E foi assim que muitas ortodoxias arrogantes surgiram, do seio dessa Igreja fragmentada. Os estudiosos liberais pensam que qualquer busca pela ortodoxia é tempo perdido, além de ser uma atividade amortecedora e estagnadora, pois nada teria a ver com a verdade ainda que posta a serviço do mero conforto mental. É que a mente humana insiste em obter sistemas fechados, completos, que solucionem todos os problemas, liberando o indivíduo da necessidade de continuar buscando e crescendo. Assim sendo, a verdadeira busca pela verdade deve evitar a estagnação, e, no entanto, à base mesma da formulação de qualquer sistema ortodoxo temos uma grande dose de estagnação. (CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Editora Hagnos. Vol. 4. pag. 633-634).  

Essa palavra vem de dois termos gregos, héteros “outro, de espécie diferente”, e dou, opinião. Uma opinião heterodoxa é uma opinião que se opõe a uma opinião ortodoxa, Antes de poder ser definido aquilo que é heterodoxo, é preciso que se tenha um padrão de ortodoxia. Como é óbvio, várias denominações, cristãs são acusadas por outras denominações de embalarem opiniões heterodoxas, e vice-versa, o que também ocorre no caso de ideias heréticas.

A Bíblia é usada como padrão, mas os defensores de opiniões contraditórias conseguem acusar-se mutuamente. A palavra “heterodoxia”, com frequência, é usada como sinônimo de “heresia”; mas outras vezes, indica apenas um grau secundário de desvio, ou de algum desvio sobre questões de pouca importância, em comparação com o que está envolvido nas heresias. (CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Editora Hagnos. Vol. 3. pag. 105).   

PAULO, POR SEU ZELO, COMBATEU AS HERESIAS DE SEU TEMPO

Gnosticismo. Foi uma heresia dos primórdios do cristianismo. O termo “gnose”, do grego “gnôsis”, significa “conhecimento, sabedoria”. Portanto, diz respeito a um “pretenso conhecimento da divindade que, esotericamente, se transmite através da tradição e mediante vários ritos de iniciação”. Esse movimento surgiu a partir de filosofias pagãs mais antigas que o próprio cristianismo, que floresceram na Babilônia, Egito, Síria e Grécia. Assim, o gnosticismo uniu a filosofia pagã com as doutrinas apostólicas do cristianismo, tornando-se uma forte influência na Igreja. Vejamos os dois grupos gnósticos e seus pontos de vista, bem como a perspectiva paulina quanto às suas doutrinas:

a) Libertinagem exaltada. Certos mestres gnósticos ensinavam que, como o corpo era mau, devia ser entregue desenfreadamente aos seus desejos, pois isto em nada afetaria o espírito. Na visão de Paulo, o homem é corpo, alma e espírito (1 Ts 5.23). Logo, não há possibilidade de pecar com o corpo e não prejudicar o espírito (Rm 8.8; 2 Co 7.1). Ademais, o nosso corpo, que é templo e morada do Espírito Santo (1 Co 6.19,20), não deve ser instrumento de iniquidade (Rm 6.19,20).

b) O ascetismo exaltado. Eles ensinavam que, por ser o corpo essencialmente mau, deveria ser tratado com severidade, regras rígidas, flagelamento, privações, isolamento, jejuns forçados e desprezo pelo casamento e pelo mundo material. Para Paulo, a salvação é pela graça e independente das obras da Lei (Rm 3.28; Ef 2.8), de modo que, apesar de ensinar os cristãos a viverem no Espírito, dominando a sua natureza caída (Rm 8.1; Gl 5.16), não lhes proibia de casar, para se satisfazerem sexualmente com o seu cônjuge (1 Co 7.1-4,7,9). O apóstolo não ensinava que a vida do cristão deveria estar isolada do mundo (1 Co 5.9-11; Fp 2.15).

Judaizantes. Os judaizantes foi um movimento surgido nas primeiras décadas da Igreja Cristã, cujo objetivo era forçar os crentes gentios a observar a Lei de Moisés (legalismo), principalmente a Lei cerimonial, que incluía a prática da circuncisão, a abstinência de alguns alimentos e a guarda do sábado e dias tidos como especiais (Cl 2.16-23). Na verdade, esse movimento pretendia reduzir o cristianismo a uma mera seita judaica” (ANDRADE, 2006, p. 242).

Contra esta pretensão, que contrariava frontalmente a Nova Aliança, levantou-se Paulo veementemente em suas cartas (Rm 3.28; Gl 2.16; 3.11; 3.24). Os modernos defensores do novo legalismo procuram enganar os incautos, com citação de textos bíblicos isolados, os quais eles torcem em favor de seus pontos de vista. Portanto, as leis do Antigo Pacto destinadas diretamente a nação de Israel, tais como as leis sacrificiais, cerimoniais, sociais ou cívicas (Lv 1.2-3; 24.10), já não são obrigatórias para quem está no Novo Pacto (At 15.24-29; Cl 2.16-17; Hb 10.1-4).

Libertinos. Certos grupos libertinos, distorcendo os ensinos de Paulo, como por exemplo, o da justificação pela fé independente das obras (Rm 3.28), afirmavam que, desde que uma pessoa tivesse fé em Cristo, não importaria se os atos dela fossem bons ou maus. Aqueles que pensam dessa forma são chamados de antinomistas. A palavra “antinomismo”, vem do grego “anti”, que significa “contra”, e “nomos”, que significa “lei”. Alegam os antinomistas que, uma vez salvos pela fé em Cristo Jesus, já estamos livres da tutela de Moisés (ANDRADE, 2006, p. 51).

Embora tenha ensinado que os homens são justificados diante de Deus pela fé, Paulo exortou também que aqueles que estão em Cristo são novas criaturas (2 Co 5.17) e, portanto, não devem mais andar segundo a carne (Rm 8.1), mas na prática das boas obras que “Deus preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.10; Tt 2.14).

A IGREJA COMO GUARDIÃ DA SÃ DOUTRINA

Paulo declarou à igreja de Éfeso que o papel dela era de sustentar a verdade divina perante o mundo:

“mas, se tardar, para que saibas como convém andar na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade.” (1 Tm 3.15).

Portanto, o comportamento da igreja frente às heresias e doutrinas falsas é o de “sustentar a sã doutrina”. A igreja é a demonstração viva e santa da verdade do evangelho. Seu papel é o de sustentar, manter e defender a verdade contra todo erro e oposição intelectual, religiosa e filosófica dos falsos mestres. (Cabral. Elienai, O Apostolo Paulo, Lições de Vida e Ministério do Apostolo do Gentios para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. Ed. 1, 2021).

“…verdade…” Devemos compreender aqui a “verdade cristã”, o evangelho de Cristo, bem como o que isso significa, que é seu sentido usual no N.T., embora esta passagem formalize um pouco mais esse termo, dando a entender aquilo que é exposto pela “fé cristã”. O termo “verdade”, nos escritos de Paulo, com frequência indica apenas o “evangelho”. Trata-se da verdade da redenção divina, no que diz respeito à salvação que ele nos dá por intermédio de Jesus Cristo (que é a personificação da verdade; ver João 14:6). (Ver também os trechos de Gl 2.5; 3.1; Ef 1.13 e Cl 1.5, quanto ao fato que o termo “verdade” é similar a “evangelho”),

“Cremos que a igreja é uma criação de Deus, e não do homem; que a redenção de seu povo se centraliza no ato de Deus, em Cristo Jesus; que a igreja é assinalada pela presença do Espírito Santo; que a igreja foi separada, em santidade, como comunidade que adora; que a igreja está relacionada com dois mundos—onde habitam pecadores perdoados que são, ao mesmo tempo, herdeiros do reino de Deus; que há um ministério, equipado por Deus com vários dons do Espírito Santo; e que a igreja é uma só, por sua própria natureza”. (Kennedy, Venture o f Faith, pág. 41).

“A igreja, que antes foi considerada como habitação de Deus, de um ponto de vista diferente é aqui reputada como a coluna que sustenta a verdade”. “…fazendo violento contraste com a bem conhecida imagem de escultura de Diana dos Efésios, entronizada naquele belíssimo templo que brilhava em sua beleza branca e sem vida, sobre os telhados da cidade onde Timóteo agia”. (CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. Vol. 5. pag. 316).

A palavra grega “hedraioma”, traduzida por baluarte, significa “aquilo que sustenta um edifício”. O baluarte mantém o edifício em equilíbrio e intacto. O baluarte é o fundamento. A igreja é comparada com uma coluna e um fundamento. Como a coluna sustenta o teto e como o fundamento sustenta toda a estrutura da casa, assim a igreja sustenta a gloriosa verdade do evangelho no mundo. A igreja sustenta a verdade por ouvi-la e obedecer-lhe (Mt 13.9), por usá- -la corretamente (2Tm 2.15), por guardá-la no coração (SI 119.11), por defendê-la (Fp 1.16), por proclamá-la (Mt 28.18-20).

Analisando essas duas metáforas, John Stott assevera que a igreja tem dupla responsabilidade em relação à verdade.

Primeiro, como fundamento, sua função é sustentar a verdade com firmeza, de tal forma que ela não caia por terra sob o peso de falsos ensinos.

Segundo, como coluna, tem a função de mantê-la nas alturas, de modo que não fique escondida do mundo. Sustentar com firmeza a verdade é a defesa e a confirmação do evangelho; mantê-la bem alto é a proclamação do evangelho.

A igreja é chamada para esses dois ministérios. Há uma estreita conexão entre a igreja e a verdade. A igreja depende da verdade para sua existência, e a verdade depende da igreja para sua defesa e proclamação. (LOPES. Hernandes Dias. 1 Timóteo. O Pastor, sua vida e sua obra. Editora Hagnos. pag. 91-92).   

Depois do apóstolo Paulo combater o falso ensino que corrompia o evangelho genuíno pregado e ensinado pelos apóstolos, apresentou a sua advertência como um mandamento, dizendo:

“Ora, o fim do mandamento é o amor de um coração puro, e de uma boa consciência, e de uma fé não fingida” (1 Tm 1.5).

A palavra grega para a expressão inicial é “telos”, que significa “fim, finalidade, intuito, alvo, propósito”. Já a palavra “mandamento” é paragello, que significa “exortação, admoestação”, e Paulo referia-se à lei judaica da qual aqueles falsos mestres judeus dentro da igreja jactavam-se de conhecê-la e de cumpri-la.

Paulo, então, antecipa-se e demonstra que os falsos mestres não tinham nem mesmo o apoio da Lei, mas essa mesma Lei Mosaica estava perfeitamente de acordo com o evangelho que era pregado e ensinado na igreja. (Cabral. Elienai, O Apostolo Paulo, Lições de Vida e Ministério do Apostolo do Gentios para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. Ed. 1, 2021).   

O texto de 1 Timóteo 1.5 diz: “o fim do mandamento é o amor”. Naturalmente, o amor é o elemento essencial para um comportamento equilibrado, e, nesse texto, “o amor” surge como um freio, ou como um instrumento de equilíbrio no combate às falsas doutrinas. Aqueles falsos mestres eram pessoas frívolas e infladas de vaidade e presunção. O objetivo de Paulo não era incitar aqueles opositores ao combate de palavras e contendas, mas, sim, o de combater as ideias erradas. A segunda expressão de 1 Timóteo 1.5 é a continuação da frase que fala de amor; mas que tipo de amor? “O amor de um coração puro”.

Ora, entende-se que esse amor procede de dentro para fora, pois não se trata de um sentimento atribuído ou recebido, mas trata-se de algo producente, que brota como uma planta. Sem dúvida, quando o nosso coração é santificado pelo Espírito Santo, a pureza que emite é interior. Um coração sujo e entenebrecido pelo pecado não pode agir com atitude amorosa; já um coração limpo diante de Deus recebe e vê as coisas de Deus com transparência.

Ainda mais, agir com “uma boa consciência” (1 Tm 1.5) significa saber fazer um julgamento imparcial, porque consegue perceber as diferenças entre o que é mau e o que é bom. Por último, manifestar “uma fé não fingida” (1 Tm 1.5) significa agir sem simulação, sem fingimento, sem hipocrisia. O apóstolo Paulo associa “uma boa consciência” com o que o crente conhece acerca da verdade e que não se deixa contaminar pelos falsos ensinos. (Cabral. Elienai, O Apostolo Paulo, Lições de Vida e Ministério do Apostolo do Gentios para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. Ed. 1, 2021).

Do mesmo modo, Paulo ensina a Timóteo que precisamos combater o erro sem magoar as pessoas. A defesa da verdade não pode ocorrer em prejuízo do amor. A verdade precisa ser dita em amor, e o amor precisa acompanhar a ortodoxia. A admoestação precisa brotar de um coração puro, ou seja, a motivação precisa ser certa.

Também esse amor precisa fluir de uma fé sem hipocrisia e de uma consciência boa, ou seja, sem a contaminação do pecado. Não se trata aqui de uma defesa pessoal, mas da defesa da verdade de Deus. Concordo com Hans Bürki quando ele diz que o amor não é um sentimento difuso ou uma sensação positiva passageira, mas uma mentalidade que leva à ação, uma orientação da natureza que leva à obediência; é a realidade da vida a partir de Deus que transforma o ser humano.

A consciência é a intuição moral do homem, seu ser moral no ato de julgar seu próprio estado, suas emoções e pensamentos, e suas palavras e ações, sejam estas passadas, presentes ou futuras. Ela é positiva e negativa: aprova e condena (Rm 2.14,15). A boa consciência é a voz interior do homem no ato de repetir a voz de Deus, seu juízo pessoal que apoia o juízo de Deus, seu espírito que dá testemunho juntamente com o Espírito de Deus. O aspecto positivo dá uma boa consciência é a fé, porque uma boa consciência não somente aborrece o mal, mas também adota o que é certo. Por isso, essa fé é verdadeira e genuína. (LOPES. Hernandes Dias. 1 Timóteo. O Pastor, sua vida e sua obra. Editora Hagnos. pag. 40-41).    

CONCLUSÃO

Imitemos a Paulo e zelemos pelo ensino intermitente da Palavra de Deus aos salvos a fim de que todos possamos sobreviver neste mundo e alcançar a glória celeste. Deve ecoar nos nossos ouvidos a exortação de Jesus aos crentes de Filadélfia, quando disse: “guarda o tens para que ninguém tome a tua coroa” (Ap 3.11).     

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