EBD – Paulo e sua Dedicação aos Vocacionados

Pr. Sérgio Loureiro
Pr. Sérgio Loureiro
Sou o Pastor Sérgio Loureiro, Casado com Neusimar Loureiro, Pai de Lucas e Daniela Loureiro. Graduando em Administração e Graduando em Teologia. Congrego na Assembleia de Deus em Bela Vista - SG
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Prezados professores e alunos,

Paz do Senhor!

“Olhai, pois, por vós e por todo o rebanho sobre o que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue.” (At 20.28)

Iremos perceber que o apóstolo Paulo tinha uma visão missionária e eclesiástica. A leitura do texto que serviu de base para a Revista de Escola Dominical traz a preocupação do apóstolo Paulo com a continuidade da obra do evangelho e a manutenção das igrejas por ele plantadas não só na Ásia, mas também no Oriente Médio e na Europa. No capítulo 20, Paulo faz um breve histórico de suas viagens missionárias e a preocupação com o futuro das igrejas plantadas. Ele declara ter a consciência tranquila quanto a sua responsabilidade ministerial com as igrejas, mas faz um alerta para as ameaças de “lobos devoradores” que procurariam entrar no “rebanho do Senhor” (a igreja) para matar as ovelhas de Cristo. Com os obreiros que estiveram com ele em Mileto, Paulo estava, de fato, despedindo-se, porque sabia que a sua batalha estava por terminar na terra. Para que compreendamos o tema deste capítulo, precisamos fazer uma breve digressão para o capítulo 19 de Atos dos Apóstolos, de quando Paulo chegou a Éfeso e encontrou apenas doze discípulos que ainda não tinham ouvido falar de Jesus senão nos sermões de Apolo, judeu de Alexandria, que conhecia apenas a mensagem profética de “João Batista” (Mt 3.1-17).

Apolo convenceu aqueles discípulos a batizarem-se com o “batismo de arrependimento” de João Batista. Eles não conheciam outro batismo, mas sabiam que o Messias anunciado por João Batista era aquele que batizaria com o Espírito Santo e com fogo. Entretanto, esses discípulos de Éfeso não sabiam ainda sobre o que aconteceu no dia de Pentecostes. Nada sabiam sobre o Espírito Santo, senão o que João Batista havia profetizado como aquele que viria depois dele, Jesus Cristo (At 19.4). Esse Jesus batizaria com o Espírito Santo e com fogo: 

“disse-lhes: Recebestes vós já o Espírito Santo quando crestes? E eles disseram-lhe: Nós nem ainda ouvimos que haja Espírito Santo. E, impondo-lhes Paulo as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo; e falavam línguas e profetizavam” (At 19.2,6).

Então, Paulo entendeu que deveria passar mais tempo com os efésios para ensinar-lhes sobre Jesus e o Espírito Santo. Ele mostrou-lhes que Jesus já havia passado pela morte de cruz e havia ressuscitado ao terceiro dia e que sua obra expiatória no calvário era suficiente para garantir-lhes a salvação de suas almas. Mostrou-lhes também que eles deveriam receber o Espírito Santo em suas vidas para terem a capacidade de confessá-lo a todas as gentes. Orou por eles e impôs as mãos para que recebessem o Espírito, e o Espírito Santo veio sobre eles e “começaram a falar em línguas e a glorificar o Senhor (At 19.5,6). De fato, primeiro foram batizados em águas em nome de Jesus e depois foram batizados com o Espírito Santo com poder para serem testemunhas de Cristo.

“E os que ouviram foram batizados em nome do Senhor Jesus. E, impondo-lhes Paulo as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo; e falavam línguas e profetizavam” (At 19.5,6).

Porém, a situação é outra no capítulo 20 de Atos. Paulo entendeu que havia chegado o momento de ele ir a Jerusalém. Ele tinha pressa em chegar lá, mesmo contrariando seus companheiros, obreiros dispostos naquela região. Ele fez sua viagem de Trôade a Mileto, mas não retornaria a Éfeso para que seus amigos não o forçassem a permanecer por mais tempo em Éfeso. Então, ele envia uma mensagem aos obreiros em Éfeso, solicitando que eles viessem ao seu encontro em Mileto. Esses obreiros eram os colaboradores da igreja em Éfeso que administravam a igreja. Nessa oportunidade, Paulo não apenas se despede deles, como também os admoesta a que fossem fiéis à doutrina recebida.

Enfim, qual a importância da igreja em Éfeso para o apóstolo Paulo? A comunicação do apóstolo na região deu-lhe a oportunidade de tornar Éfeso o lugar central de preparação de seus colaboradores para o exercício pastoral. Durante o tempo em que se dispôs a ficar em Éfeso, Paulo dedicou-se não só a doutrinar a igreja, como também a ensinar os obreiros vocacionados para a obra e prepará-los para serem os líderes nas igrejas plantadas por ele e abrirem outras em nome do Senhor. (Cabral. Elienai, O Apostolo Paulo, Lições de Vida e Ministério do Apostolo do Gentios para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. Ed. 1, p. 107,108, 2021).

A relação mentoreado/mentor é muito preciosa e não pode ser tratada de modo superficial. Na verdade, esse relacionamento é um dom divino, algo parecido ao que Jesus diz a seus discípulos, seus mentoreados:

“Já vos não chamarei servos, [hoje, uma palavra possivelmente semelhante seria “obreiros” ou “estudantes”], porque o servo não sabe o que faz o seu senhor, mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer. Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça, a fim de que tudo quanto em meu nome pedirdes ao Pai ele vos conceda” (Jo 15.15,16).

Ao referir-se a esta passagem, C. S. Lewis afirma que não escolhemos nossos amigos; Deus os escolhe para nós. Se, de um lado, essa afirmação nos leva a descansar no Senhor quanto a ele inserir pessoas em nossa vida e excluí-las dela, de outro lado, haverá situações em que teremos de tomar a iniciativa e nos esforçar a favor de nosso mentor ou mentoreado. E o caso da busca pela pessoa que será nosso cônjuge, por exemplo. Embora essa relação seja uma dádiva do céu, é preciso, para que dê certo, entregar nossa vida a ela! Uma relação de mentor e mentoreado é algo muito semelhante e precioso.

O aprofundamento é um processo longo, como ocorreu entre Jesus e os Doze. Foi necessário um ano e meio desde o primeiro chamado em João 1 até que Jesus os separasse como os Doze (Mc 3.13-19; Lc 6.12-16). Em certo sentido, o crescimento gradativo dessa relação pode ser comparado ao processo natural de amizade, namoro, noivado e casamento. O ideal é que seja lento e flua sem artificialismos e sem pressões. Para muitos, encontrar a pessoa certa para atuar como mentor (ou até para mentorear) é quase tão difícil como encontrar alguém para se casar, especialmente quando aquele que busca o mentor é também pastor. Mas vejamos o que dizem as Escrituras:

“[…] busquem, e encontrarão; batam, e a porta lhes será aberta” (Mt 7.7).

O significado desses verbos, em grego, demonstra uma ação continuada. Se não desistirmos, se realmente formos sérios em nossa procura, Deus nos revelará o líder pastoral, o discipulador ou o mentor de que precisamos. (Lourenço Stelio Rega. Paulo e Sua Teologia. Editora Vida, p. 48-49).

PAULO, O FORMADOR DE TIMÓTEO, TITO, TÍQUICO E ERASTO

Veremos hoje uma faceta do ministério de Paulo que foi muito importante, qual seja, a sua dedicação aos vocacionados, o seu papel de formador de obreiros.

O primeiro deles é Timóteo. Assim, já no início de sua segunda viagem missionária, a primeira em que assumia o papel de protagonista, pois, como sabemos, na primeira viagem missionária era ele tão somente auxiliar de Barnabé, Paulo demonstra este cuidado em saber a respeito das vocações do Senhor.

Ao chegar a Derbe e Listra, buscando “confirmar as igrejas” (At 15.41), o apóstolo mostra o seu cuidado para com a identificação dos vocacionados, tanto que lhe é mostrado o jovem Timóteo, filho de um pai grego e de uma mãe judia, que estava a se destacar em Listra, que dava bom testemunho

“E chegou a Derbe e Listra. E eis que estava ali um certo discípulo por nome Timóteo, filho de uma judia que era crente, mas de pai grego,” (At 16.1)

E que foi apontado por profecia como um chamado

“Não desprezes o dom que há em ti, o qual te foi dado por profecia, com a imposição das mãos do presbitério.” (1Tm 4.14)

e que bem militaria na obra do Senhor

“Este mandamento te dou, meu filho Timóteo, que, segundo as profecias que houve acerca de ti, milites por elas boa milícia,” (1Tm 1.18).

Paulo investigou a vida do rapaz, tendo descoberto que ele tinha tido, desde sua infância, uma formação nas sagradas letras, tanto por meio de sua mãe, Eunice, que era judia, mas havia se convertido a Cristo, como de sua avó materna Loide

“trazendo à memória a fé não fingida que em ti há, a qual habitou primeiro em tua avó Loide e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também habita em ti.” (2Tm 1.5).

Observemos que Paulo, assim como Barnabé, tinha uma visão espiritual. Timóteo tinha algumas características que, num olhar humano, lhe eram grandemente desfavoráveis.

Por primeiro, era um “mestiço”, ou seja, seu pai era grego e sua mãe, judia. Tal circunstância fazia com que Timóteo não fosse bem recebido nem na comunidade judia, porque não fora circuncidado, muito provavelmente por causa da oposição de seu pai; nem tampouco na comunidade grega, uma vez que sua mãe, cujo nome era Eunice, era judia e fizera questão de ensinar-lhe as sagradas letras, assim como sua avó materna Loide (2Tm 1.5).

Por segundo, era jovem, muito provavelmente alguém recém saído da adolescência e tal circunstância, numa sociedade que primava pela concessão da autoridade apenas aos mais idosos, tanto que, nas igrejas gentílicas fundadas por Barnabé e Paulo foram eleitos “anciãos” para dirigi-las

“E, havendo-lhes por comum consentimento eleito anciãos em cada igreja, orando com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido.” (At 14.23),

evidentemente descartava a possibilidade de Timóteo exercer qualquer função proeminente na obra do Senhor.

Por terceiro, tudo indica que Timóteo era alguém que se dedicava a atividades físicas, quiçá a algum esporte olímpico

“Porque o exercício corporal para pouco aproveita, mas a piedade para tudo é proveitosa, tendo a promessa da vida presente e da que há de vir.” (1Tm 4.8),

em mais uma provável influência paterna, o que também o podia pôr sob suspeita, já que tais atividades estavam relacionadas com os cultos dos deuses gregos.

“o qual, quando chegou e viu a graça de Deus, se alegrou e exortou a todos a que, com firmeza de coração, permanecessem no Senhor.” (At 11.23)

No entanto, Paulo tinha a “visão de Barnabé” e tal visão, nitidamente espiritual, enxergou em Timóteo uma pessoa chamada por Cristo para o ministério, tanto que se ateve ao bom testemunho que dele davam os irmãos em Listra e em Icônio

“do qual davam bom testemunho os irmãos que estavam em Listra e em Icônio.” (At 16.2),

testemunho este confirmado por profecia

“Não desprezes o dom que há em ti, o qual te foi dado por profecia, com a imposição das mãos do presbitério.” (1Tm 4.14).

Paulo, então, não teve dúvidas em incluir o jovem Timóteo em sua comitiva e, de imediato, o circuncidou

“Paulo quis que este fosse com ele e, tomando-o, o circuncidou, por causa dos judeus que estavam naqueles lugares; porque todos sabiam que seu pai era grego.” (At 16.3).

Paulo não foi apenas formador de Timóteo. Ao longo de seu ministério, Paulo sempre esteve cercado de cooperadores, que ajudou a formar como obreiros na casa do Senhor. Além de Timóteo, que, sem dúvida alguma tem destaque neste grupo, tivemos outros que mencionaremos, ainda que ligeiramente.

O segundo deles é Tito. As Escrituras não nos indicam quando Paulo conheceu Tito ou de que lugar era ele. Sabe-se que era gentio (Gl 2.3), de modo que foi salvo provavelmente em sua primeira viagem missionária, tanto que foi seu companheiro quando foi a Jerusalém por ocasião do concílio que decidiu não estarem os crentes gentios submetidos à lei de Moisés (Gl 2.1).

“Depois, passados catorze anos, subi outra vez a Jerusalém com Barnabé, levando também comigo Tito. Mas nem ainda Tito, que estava comigo, sendo grego, foi constrangido a circuncidar-se”.

Tito é chamado por Paulo de “meu verdadeiro filho”, a nos mostrar como o apóstolo tinha um relacionamento pessoal, familiar com os seus cooperadores, tanto que trata a Tito como a Timóteo, ou seja, como “filhos”. Nesta espécie de tratamento, vemos o cuidado que o apóstolo tinha com os vocacionados, procurando-lhes orientar de forma plena, realmente educá-los na vida cristã e na vida ministerial.

Diz a sociologia que há duas espécies de grupos sociais:

o grupo social primário, onde os integrantes compartilham as suas vidas, sentimentos, desejos e têm uma verdadeira vida em comum, de que é exemplo a família;

e os grupos secundários, onde o relacionamento não chega ao compartilhamento de vidas, é baseado em metas, finalidades, objetivos, de que é exemplo o local de trabalho.

A formação de vocacionados, como, aliás, todo e qualquer relacionamento em uma igreja local deve ser um relacionamento de “grupo social primário”, pois aqui está a essência da própria Igreja, que é um corpo, como, aliás, é descrito ter ocorrido na igreja de Jerusalém:

“E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações. Em cada alma havia temor, e muitas maravilhas e sinais se faziam pelos apóstolos. Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e fazendas e repartiam com todos, segundo cada um tinha necessidade. E, perseverando unânimes todos os dias no templo e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar.” (At 2.42-47).

É muito triste verificarmos que, em muitos lugares, o relacionamento existente entre os obreiros é meramente profissional, empresarial… Que Deus nos guarde!

Tito é, também, chamado por Paulo de “meu irmão”

“não tive descanso no meu espírito, porque não achei ali meu irmão Tito; mas, despedindo-me deles, parti para a Macedônia” (2Co 2.13),

a confirmar aqui que, assim como considerava Timóteo como “irmão”, acima de tudo, também o fazia em relação a Tito, revelando ser, pois, está uma prática comum e corriqueira da parte do apóstolo para com os seus cooperadores. Jamais devemos nos esquecer que cada salvo é um irmão de Cristo Jesus.

Tito, assim como Timóteo, foi sendo pouco a pouco envolvido na obra de Deus. Vai ao concílio de Jerusalém como mero acompanhante de Barnabé e de Paulo (Gl 2.1). Ali o jovem obreiro pôde presenciar os embates de Barnabé e Paulo com os judaizantes, bem como as declarações de Pedro e de Tiago, bem como o Espírito Santo dirigiu a todos para que se entendesse não estarem os crentes gentios submetidos à lei de Moisés.

Com o tempo, porém, Tito já teria mais desenvoltura, tanto que o apóstolo disse ter ficado preocupado quando, indo para Trôade, a fim lá pregar o Evangelho, não encontrou ali Tito

“Ora, quando cheguei a Trôade para pregar o evangelho de Cristo e abrindo-se-me uma porta no Senhor, não tive descanso no meu espírito, porque não achei ali meu irmão Tito; mas, despedindo-me deles, parti para a Macedônia.” (2Co 2.12,13),

prova de que este seu cooperador tivera o propósito de ali pregar, já tendo, assim, condições de fazê-lo. Quando o apóstolo estava na Macedônia, em meio aos embates que enfrentava em Tessalônica e em Bereia, eis que surge Tito, que veio consolá-lo

“Mas Deus, que consola os abatidos, nos consolou com a vinda de Tito” (2Co 7.6).     

Paulo aqui revela que o formador não pode se apresentar como um “supercrente”, como “alguém acima de qualquer dificuldade”, mas como um ser humano normal, que, embora tenha a autoridade sobre os formandos, não deixa de depender deles, pois, em Cristo, somos membros uns dos outros

“assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros. Pelo que deixai a mentira e falai a verdade cada um com o seu próximo; porque somos membros uns dos outros.” (Rm 12.5; Ef 4.25).

Em Corinto, Paulo, aliás, vai se utilizar de Tito mais de uma vez nos embates que teve com aqueles crentes. Tudo indica que foi Tito o portador da chamada “carta severa”, a epístola não constante das Escrituras em que o apóstolo teria repreendido duramente os crentes de Corinto

“E escrevi-vos isso mesmo para que, quando lá for, não tenha tristeza da parte dos que deveriam alegrar-me, confiando em vós todos de que a minha alegria é a de todos vós. Porque, em muita tribulação e angústia do coração, vos escrevi, com muitas lágrimas, não para que vos entristecêsseis, mas para que conhecêsseis o amor que abundantemente vos tenho. (2Co 2.3,4),

tendo tido êxito em consolar os coríntios

“e não somente com a sua vinda, mas também pela consolação com que foi consolado de vós, contando-nos as vossas saudades, o vosso choro, o vosso zelo por mim, de maneira que muito me regozijei. Porquanto, ainda que vos tenha contristado com a minha carta, não me arrependo, embora já me tivesse arrependido por ver que aquela carta vos contristou, ainda que por pouco tempo; agora, folgo, não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados para o arrependimento; pois fostes contristados segundo Deus; de maneira que por nós não padecestes dano em coisa alguma. Porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, da qual ninguém se arrepende; mas a tristeza do mundo opera a morte. Porque quanto cuidado não produziu isso mesmo em vós que, segundo Deus, fostes contristados! Que apologia, que indignação, que temor, que saudades, que zelo, que vingança! Em tudo mostrastes estar puros neste negócio.” (2Co 7.7-11)

Paulo também designou Tito para cuidar da coleta para os pobres de Jerusalém em Corinto

“de maneira que exortamos a Tito que, assim como antes tinha começado, assim também acabe essa graça entre vós.” (2Co 8.6),

sendo certo que Tito era uma pessoa que aprendera com Paulo e, a exemplo de Timóteo, estar preocupado com o bem-estar material e espiritual dos crentes

“Mas graças a Deus, que pôs a mesma solicitude por vós no coração de Tito; pois ele aceitou a exortação e, muito diligente, partiu voluntariamente para vós.” (2Co 8.16,17),

tendo sido exortado, ou seja, estimulado, incentivado e animado por Paulo a realizar esta tarefa.

Aqui vemos que o formador não é apenas um atribuidor de tarefas, alguém que dá ordens. Muito mais do que isto, o formador de vocacionados precisa mostrar aos seus formandos a importância e o significado daquilo que se está pedindo a fazer, como isto é importante para o Reino de Deus e como isto contribuirá para o aprimoramento do jovem obreiro. É crucial ao formador ter o dom da exortação

“ou o que exorta, use esse dom em exortar; o que reparte, faça-o com liberalidade; o que preside, com cuidado; o que exercita misericórdia, com alegria.” (Rm 12.8).

Tudo indica que Tito tinha algum receio em realizar a coleta em Corinto, uma igreja que era muito ciosa com a questão da contribuição. Há, inclusive, quem diga que Tito foi a Corinto para complementar o trabalho que Timóteo não teve êxito na em realizar e, por isso mesmo, Tito tinha receio de que, numa segunda ida a Corinto, e ainda para angariar recursos, houvesse grande probabilidade de fracasso, mas Paulo o fez dissuadir deste temor.

Outro cooperador de Paulo mencionado nas Escrituras é Tíquico, que é mencionado como tendo sido um dos companheiros de Paulo, “dos da Ásia”, quando este deixou Éfeso (At 20.4).

Tíquico é chamado pelo apóstolo como “irmão amado e fiel ministro do Senhor” (Ef 6.21) e, uma vez mais, vemos como Paulo considerava aqueles que estavam junto de si. Como irmão de Jesus e ministro do Senhor, amando o irmão e constatando a sua fidelidade ao Senhor. É esta a postura que devemos ter com nossos formandos: amá-los e procurar neles a fidelidade.

Em Cl 4.7, Paulo volta a chamar Tíquico de “irmão amado” e “fiel ministro”, mas acrescenta que é “conservo no Senhor”. Mais uma vez o apóstolo se iguala aos seus cooperadores, lembrando a todos que servimos a Deus e que somos todos conservos, como, aliás, vai se considerar o anjo que acompanhava João nas revelações do Apocalipse

“E disse-me: Olha, não faças tal, porque eu sou conservo teu e de teus irmãos, os profetas, e dos que guardam as palavras deste livro. Adora a Deus. (Ap 22.9).

Se até anjo se considera conservo, por que temos, hoje em dia, pessoas “tão importantes” que não aceitam sequer ser tratados como iguais? Pensemos nisto!

Tíquico foi muito utilizado por Paulo para ir às igrejas a fim de confortar os irmãos durante a prisão do apóstolo e mesmo depois dela. Assim é que foi enviado para Éfeso (Ef 6.21; 2Tm 4.12), Colossos (Cl 4.7) e Creta (Tt 3.12), onde provavelmente substituiu Tito na organização das igrejas.

Por fim, façamos menção de Erasto, que é dito ser alguns dos que serviam a Paulo e que fez companhia a Timóteo na ida deste à Macedônia

“E, enviando à Macedônia dois daqueles que o serviam, Timóteo e Erasto, ficou ele por algum tempo na Ásia.” (At 19.22)

e que foi deixado por Paulo em Corinto, quando este foi para Trôade, onde acabou preso pela segunda vez

“Erasto ficou em Corinto, e deixei Trófimo doente em Mileto” (2Tm 4.20).

Na dedicação aos vocacionados, os obreiros mais experientes devem delegar tarefas para os mais jovens, conforme a sua capacidade, não podem ser centralizadores ao extremo. Como costuma se dizer, “aprende-se na prática” e, portanto, faz-se necessário que os obreiros mais jovens recebam delegações, para que possam exercer o seu ministério. Pouco a pouco devem receber responsabilidades, para que, no momento em que tiverem de assumir suas próprias atividades, não estejam completamente inexperientes e sem vivência.

O LEGADO DOUTRINÁRIO DE PAULO PARA OS NOVOS LÍDERES

O apóstolo Paulo fez várias advertências, tanto à igreja, de forma geral, como aos vocacionados ao santo ministério. O objetivo desses alertas era preservar a casa do Senhor de danos causados pelos falsos mestres e pelos falsos ensinos. Além disso, era preocupação do apóstolo manter o padrão da sã doutrina, de forma que ela não fosse violada pelos hereges. Notemos:

Cuidados com os falsos mestres. Um dos alertas que o apóstolo Paulo fez aos presbíteros em Éfeso foi sobre a entrada de falsos mestres no seio da Igreja de Cristo:

“[…] homens que falarão coisas perversas, para atraírem os discípulos após si” (At 20.29,30).

Escrevendo aos coríntios, ele adverte que os falsos apóstolos podem se transfigurar em apóstolos de Cristo (2Co 11.13). No entanto, são falsos doutores movidos pela avareza (2Pe 2.1). Ainda existem outras características dos falsos mestres que são apresentadas na Palavra de Deus, tais como:

 a) hereges (2Pd 2.1,12);

b) mentirosos (1Jo 2.22), e

c) escarnecedores (2Tm 3.2).

A partir desses textos, entende-se a preocupação do apóstolo em alertar aos vocacionados para o ministério sobre os falsos mestres e suas heresias.

Cuidados com os falsos ensinos. A instrução bíblica deve ser ministrada não apenas para a edificação, mas também para refutar e combater os falsos ensinos. O apóstolo Paulo diz a Timóteo:

“que pregues a palavra, instes a tempo e fora de tempo, redarguas, repreendas, exortes, com toda a longanimidade e doutrina” (1Tm 4.2).

Paulo conhecia a ação dos falsos mestres, que não se moldavam aos padrões bíblicos e sabia que muitos iriam seguir seus falsos ensinos. Por isso, ele diz que viria um tempo em que muitos fariam “doutores conforme as suas próprias concupiscências” (2Tm 4.3).

Cuidado em preservar a sã doutrina. Paulo advertiu sobre a preservação da sã doutrina:

“Conserva o modelo das sãs palavras que de mim tens ouvido, na fé e na caridade que há em Cristo Jesus” (2Tm 1.13).

As “sãs palavras” são a revelação original e fundamental de Cristo e dos apóstolos, bem como as doutrinas bíblicas ensinadas a Timóteo por Paulo. Timóteo devia conservar essas verdades com fé em Jesus Cristo e amor a Ele; nunca se apartar delas, e não as comprometer, mesmo que sua fidelidade para com elas importasse em sofrimento, rejeição, humilhação e zombaria. Hoje, em algumas igrejas, a ideia popular em moda é enfatizar que é a experiência, e não a doutrina, o que mais importa. As Epístolas Pastorais de Paulo contradizem firmemente tal coisa (1Tm 1.10; 6.3; Tt 1.9,13; 2.1,2,8) (STAMPS, 1995, p. 1877).

RECOMENDAÇÕES DO APÓSTOLO PAULO AOS VOCACIONADOS

As recomendações do apóstolo Paulo, quando dirigidas aos vocacionados, sempre foram no sentido de uma exortação, ou seja, um estímulo, um encorajamento com um objetivo de defender a pureza do Evangelho, em face dos falsos ensinos (1Tm 1.3-7; 4.1-8; 6.3-5,20,21), bem como a respeito das qualificações espirituais e pessoais exigidas daqueles que são chamados por Deus para servir na obra. Vejamos:

Fidelidade (1Tm 4.12,13,15). A fidelidade é indispensável na vida de um salvo, pois envolve todas as áreas da sua vida. Fidelidade a Deus, ao cônjuge, aos filhos, à igreja, nos negócios, enfim, fidelidade em todas as áreas da vida: “… além disso, requer-se… que cada um se ache fiel” (1Co 4.1,2).

Vigilância (1Tm 4.16). O crente que não é vigilante pode tornar a sua vida uma tragédia. É preciso ser vigilante em todas as áreas, para que os nossos adversários, inclusive o Diabo, não tenha do que nos acusar. O crente deve ficar sempre de prontidão e nunca dormir em relação ao seu testemunho pessoal, pois o inimigo não dorme, mas trabalha dia e noite, procurando uma brecha para entrar e destruí-lo (1Pe 5.8; 1Ts 5.6).

Resiliência (2Tm 2.3-5). Hoje muitos não querem mais sofrer por amor a Cristo. O crente não foi chamado só para viver um evangelho de conforto, mais também de sofrimento e provação. O apóstolo Paulo, escrevendo aos filipenses, diz: “Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele, tendo o mesmo combate que já em mim tendes visto e, agora, ouvis estar em mim” (Fp 1.29,30; vejamos ainda 2Tm.2.11-13).

Verdade (2Tm 4.1-5; Tt 2.1). O crente aprovado é verdadeiro porque vive na verdade e prega a palavra da verdade. Só pode pregar a palavra da verdade, aquele que é verdadeiro. Quando o apóstolo Paulo disse “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade”, isto significa dizer que, para se apresentar a Deus aprovado, é preciso estar vivendo a verdade. Quem vive a verdade tem aprovação de Deus, não é envergonhado por ninguém e tem autoridade de manejar bem a Palavra da Verdade.

Humildade (1Tm 6.3,4, 11). A humildade é uma virtude que identifica o verdadeiro homem de Deus. O servo aprovado não deve ser orgulhoso, soberbo e de olhar altivo, e sim, amigo, comunicativo, amável, generoso e humilde (Ef 4.1,2). A palavra de Deus nos diz: “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda” (Pv 16.18); diante da honra, vai a humildade” (Pv 18.12).

Disposição (2Tm 2.15a). Quando Paulo disse ao seu discípulo Timóteo “Procura apresentar-te a Deus aprovado”, que significa: “procura estar sempre disponível para Deus”. Nenhuma ocupação terrena pode privar-nos desta disponibilidade (2Tm 2.4). É claro que há crentes que têm suas atividades profissionais, e que delas depende sua sobrevivência. Estes devem buscar organizar de tal maneira o seu tempo, de sorte que haja a maior disponibilidade possível para trabalhar na obra de Deus.

COMO SERVIR A DEUS SENDO UM COOPERADOR VOCACIONADO

Diante da grande responsabilidade de salvaguardar a verdadeira doutrina bíblica e de transmiti-la aos fiéis, o apóstolo Paulo expõe algumas características imprescindíveis que devem ser encontradas nos vocacionados que desejam servir no ministério da Palavra.

Bom caráter. O dicionarista Houaiss (2001, p. 620) define a palavra “caráter” como “o conjunto das qualidades boas ou más de um indivíduo que lhe determina a conduta – como a pessoa age”. Paulo escreve a Timóteo, dizendo que aquele que almeja cooperar na obra do Senhor excelente obra almeja (1Tm 3.1). No entanto, estará apto para esse serviço se, além de ter a chamada divina, for irrepreensível no seu caráter: “Convém,pois, que… seja irrepreensível” (1Tm 3.2a).

No texto de Atos 16.2, ver-se que Timóteo era reconhecido em sua cidade Listra e também em Icônio. É muito animador ver que existem pessoas que são capazes de causar uma boa impressão. Porém, no caso de Timóteo, o seu testemunho falava alto, a ponto de pessoas de outra cidade reconhecerem a sua fé. Portanto, é imprescindível que aquele que coopera na obra de Deus possua as qualificações morais que a Bíblia exige (At 6.3; 1Tm 3.1-16; Tt 1.5-9).

Irrepreensível. Paulo lembrou a Timóteo o exemplo de Jesus diante de Pôncio Pilatos:

“Ninguém despreze a tua mocidade; mas sê o exemplo dos fiéis, na palavra, no trato, no amor, no espírito, na fé, na pureza.” (1Tm 4.12; 6.13-16).

Ter um bom testemunho perante as pessoas, obedecer aos mandamentos de Cristo e guardá-los sem mácula, com um coração puro, íntegro e sincero perante Deus. Que as pessoas ao nosso redor reconheçam em nós o caráter de Jesus! Ser sal e luz e fazer toda a diferença! Timóteo imitou o modo de vida de Paulo; escolheu alguém que agradava à Deus e seguia os passos de Cristo; tirou para si tudo o que havia de bom na figura de Paulo. Todos aqueles que irão viver a eternidade deverão ser encontrados irrepreensíveis antes da volta de Cristo (1Tm 6.6-7; 2Pe 3.14; Mt 5.8).

Responsável. O dicionarista Houaiss (2001, p. 2440) define a palavra “responsável” como “aquele que responde por seus atos ou pelos de outrem; que tem condições morais”. O serviço do Senhor precisa ser feito com muita responsabilidade, visto que aquilo que fazemos e a maneira como realizamos serão submetidos à análise no Tribunal de Cristo, onde as obras dos salvos serão julgadas (Rm 14.10; 1Co 3.13-15; 1Co 5.10).

Conhecedor e pregador da Palavra de Deus. Paulo nos aconselha a pregar a Palavra de Deus. Não podemos perder as oportunidades de ministrar a Palavra aos nossos amigos e familiares, mesmo quando sabemos que os confrontaremos. Devemos atender a este mandamento do Senhor e pregar. Não calar os nossos lábios e dizer aquilo que o Senhor tem colocado em nosso coração é dever cristão (2Tm 4.1-2; 1Tm 6.17-21). O apóstolo Paulo já afirmou:

“Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido, e que desde a tua meninice sabes as sagradas Escrituras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus” (2Tm 3.14-15).

CONCLUSÃO

Na lição de hoje aprendemos que o apóstolo Paulo se dedicou muito na formação espiritual dos vocacionados ao ministério. Para isso, Paulo fez várias recomendações e advertências, e, por fim, traçou o perfil esperado daqueles que desejam servir na obra de Deus. Meu desejo é que cada vocacionado cuide da sua vocação sem perder as razões que levaram o Senhor a chamá-lo para sua obra.

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